Umbigo
Tuesday, January 20, 2004
  XL.

A mão que embala o queixo


O rapaz já praticava o gesto na foto que exibia no semanário de onde veio («O Independente») e agora reincide no semanário em que se estreou há pouco («Expresso»). Referimos obviamente ao filósofo político João Pereira Coutinho. O gesto?
Rodin, evidentemente. Ou, talvez mais apropriado, Gabriel, o Pensador. O gesto do jovem pensador é o de um olhar altivo e, claro, de mão pousada no queixo. Meditativo. Talvez se trate de um problema com o fechamento do maxilar ou de uma cárie mal tratada por um médico indiano (estagiário) do Princess Diana Dental School de Oxford, que a bolsa da FCT, além de imerecida, não dava para mais. Cremos, todavia, que se trata apenas - e tão só - de um problema de pose: a mão, fechada, ampara o queixo e o polegar fica levemente retraído, a tapar a papada que desponta. O quadro geral é o de alguém que pensa nas coisas. Enfim, o retrato de um perfeito imbecil.

Prova documental. Um trecho:

«Prossegue o drama de Aveiro: sete mulheres julgadas pela prática de aborto, juntamente com maridos, namorados, um médico e duas empregadas. Posição pessoal? O aborto não deve ser descriminalizado. E estas mulheres não deviam ser condenadas. Uma contradição? Não creio. É possível estabelecer uma linha geral sobre aquilo que uma sociedade civilizada considera como moralmente aceitável. E é possível, perante casos concretos, exibir uma sensibilidade sobre a matéria que não passa por uma condenação em tribunal». (a tirada veio no último «Expresso»)

Obviamente, lá teria de vir o fadinho da «sociedade civilizada», não fora o rapaz discípulo dessa outra figura do imbecilismo nacional que dá pelo nome de João Carlos Espada (um menino que ainda em meados dos anos 80 era de esquerda e agora recomenda como leitura de Natal o livrito desse liberalão que é o Pde. João Seabra).

Mas vamos ao que interessa:

1º - O rapaz da mão do queixo (que saudades dos neo-realistas dos sacos de cimento e das bicicletas!) não diz aos estúpidos que não leram Isaiah Berlin o que é isso duma «linha geral sobre aquilo que uma sociedade civilizada considera como moralmente aceitável»

2º - O rapaz da mão do queixo não responde ao mais importante: porque é que o aborto deve ser criminalizado? Ele acha que deve ser («O aborto não deve ser descriminalizado») mas não explica porquê. Porque não é «moralmente aceitável» numa «sociedade civilizada»? Mas então o rapaz (que cultiva a mão no queixo e o liberalismo) não sabe que um dos pressupostos clássicos do liberalismo é a distinção entre a esfera do direito e a esfera da moral? Falando em «esferas», ajudá-lo-ia uma leiturazita do Michael Walzer. Ou já agora o célebre Relatório Wolfenden, sobre a (não) incriminação da homossexualidade e da prostituição, que foi publicado numa altura em que este miúdo ainda não tinha nascido.

3º - O rapaz da mão do queixo, obviamente, não sabe do que fala. Não conhece o processo. Não sabe se existiam atenuantes, agravantes, etc. Não sabe que um juiz não pode «exibir uma sensibilidade sobre a matéria» se no processo os arguidos não lhe tiverem dado razões para isso, com atenuantes e outras coisas que naturalmente não estão nos livros de Popper. Não sabe que uma «justiça do caso concreto» não pode sistematicamente desrespeitar o que está nos códigos, por maior que seja a «sensibilidade» dos magistrados, sob pena de se criarem coisas como umn «governo de juízes». Se a lei pudesse ser ultrapassada à mercê da «sensibilidade» dos juízes, a benefício de uma «jurisprudência do coitadinho», os fundamentos da «sociedade civilizada» (a sociedade que só escreve a tinta permanente e usa casacos de «tweed») iriam para onde este nosso pensador merece ser despejado: a cloaca. A posição de quem faz e desfaz as leis (e que, por acaso, foi escolhido pelo povo, pormenor que não parece atemorizar o rapaz que agarra o queixo) seria destruída.

4º - Mais importante: neste «caso concreto», os juízes não deveriam ter condenado. É essa a posição do pensador Coutinho. E, detalhe de somenos, como decidir outros «casos concretos»? Mostrar-se-ia sempre «sensibilidade», atirando para o caixote do lixo «a linha geral sobre aquilo que uma sociedade civilizada considera como moralmente aceitável»? Ou condenar-se-iam os arguidos, reabrindo noutros lugares aquilo a que o Sr. Coutinho qualifica como «o drama de Aveiro»? Entre a «linha geral» e o «drama de Aveiro» balança o nosso jeune philosophe (young philosopher). Com este balanço, tem mesmo de pôr a mão nos queixos. Para agarrar uma cabeça tão vazia quanto petulante.



 
Tuesday, January 06, 2004
  XXXIX.

Frases de 2003, eleitas pela redacção deste blog

Nacional - «Boa noite, Felgueiras, Boa noite, Portugal. Eu não fugi à justiça» (Fátima Felgueiras, a abrir conferência de imprensa no Rio de Janeiro. Frase verídica)

Internacional - «Não tive quaisquer contactos e nem sequer conheço pessoalmente o Snr. Carlos Silvino» (primeiras declarações de Saddam Hussein ao ser detido para averiguações nos arredores de Tikrit. Frase não verídica, mas possível, até porque, como diria EPC, o verídico não circunscreve as fronteiras do possível)


 
  XXXVIII.

O presente «blogue», associado ao Snr. José Vilhena e ao destacável «Inimigo Público», vem por este meio mostrar a sua indignação pela concorrência desleal que, no que toca ao nonsense, lhe é movida pelo semanário Expresso, cuja última edição noticiava a possibilidade de o distinto causídico Manuel Maria Martins vir a patrocinar o Snr. Saddam Hudai Hussein em causa que corre os seus termos no DIAP de Tikrit.










 
  XXXVII.

Porque é que mandaram este homem embora?

Cunha Rodrigues, ouvido sobre o processo Casa Pia, disse viver-se um «momento complexo» da justiça. E acrescentou:

«Nas depressões impõe-se que as elites elevem o seu discurso, porque o que se eleva converge»


Pergunta-se, de novo: porque é que mandaram este homem embora?  
Monday, December 15, 2003
  XXXVI.

Os familiares do poeta Sebastião Alba e a personagem «Bicas» da novela «Olhos d'Água», encarnada pelo actor Manuel Cavaco, vêm por este meio declarar que o sujeito ontem capturado na localidade de Tikrit NÃO É qualquer uma das personalidades acima referenciadas.  
  XXXV.

A bolsa de apostas de Londres está a aceitar, à razão de 1/1000000, que o Expresso na sua já tradicional edição-fim-de-ano-só-com-fotos-que-a-malta-foi-de-férias irá eleger:

Acontecimento nacional do ano: Processo Casa Pia
Figura nacional do ano: juiz Rui Teixeira

Se nos enganarmos, prometemos que fechamos este blog. 
  XXXIV.

O empresário Diogo Vaz Guedes, animandor do Congresso de jovens gestores «Compromisso Portugal», acaba de vender a sua empresa, a segunda maior construtora nacional, a um grupo espanhol. Por esse motivo, informa que o Congresso, cuja realização se prevê para Janeiro de 2004, passará a intitular-se «Compra-me isso Portugal».  
  XXXIII.

Aproximando-se a tradicional quadra dos mortos na estrada, aqui fica a mensagem de Natal (de 1978) do Pde. Mário de Oliveira (o famoso pároco da Lixa). Extractos:

«(...) Maria de Nazaré que o Natal revela atenta ao movimento dos oprimidos e explorados de todo o mundo na demanda pela liberdade e pela justiça, e toda ela, por isso, canta entusiasmada as pequenas e as grandes vitórias por eles alcançadas, aqui e ali, desde o Egipto dos faraós à Nicarágua de Somoza; ao contrário de Maria de Nazaré que aposta que os poderosos serão derrubados e os ricos despedidos de mãos vazias, a maior parte do Povo português, há séculos dominado pela nefasta influência da Cristandade ocidental, materializada sobretudo na função mítica dos arcebispos, bispos e abades, é levado a viver subserviente frente aos senhores e patrões (...).
Ao contrário de Maria de Nazaré que vê no filho nascido das suas entranhas e anteriormente concebido por força de um Projecto alternativo ao do Poder opressor, o libertador e salvador do seu Povo e até de todos os povos caídos ainda na alienação; que, por isso mesmo, é capaz de O acompanhar e reconhecer, quando Ele, homem feito, foi perseguido e morto pelo Imperialismo romano, em conluio com os latifundiários nacionalistas da Judeia, como se fosse um chefe de guerrilha».

(in Mário de Oliveira, Cristãos por uma Igreja Popular, Centela, 1983, pág. 97).

 
Wednesday, December 10, 2003
  XXXII.

Provavelmente, a frase mais pirosa do ano que finda. Do editor da revista «Única» do semanário Expresso, erm 6 de Dezembro de 2003. E com destaque:

«O Mundo está diferente. Maria José Morgado também»

Poder-se-ia acrescentar, singelamente:

«E o Expresso está cada vez mais uma bela merda» 
Thursday, December 04, 2003
  XXXI.

Para quem julgar que este blog anda a descambar na ordinarice, avisa-se maior atenção à realidade. Na já referida edição nº 1308 da prestimosa publicação Maria, Marluce, ex-mulher de Carlos Cruz, explica a acrimónia da estação televisiva TVI e da apresentora Manuel Moura Guedes contra o arguido Cruz:

«O que o Carlos teve com a Manuela Moura Guedes foi uma noite única. Nessa altura eu namorava o Carlos e ela estava noiva do primeiro marido, o Francisco. O Carlos era muito mulherengo, mas só soube do caso mais tarde (...). Aquela noite deixou-lhe (Manuela Moura Guedes) muitos traumas na certa. Ela está louca. É por isso é que está virada contra o Carlos».

O que lhe terá «o Carlos» feito nessa «noite única»? Que «trauma» deixou na opinativa Guedes?

Tímida proposta de solução do impasse:

«Fica pela presente notificada a Drª Manuela Moura Guedes para se apresentar no Instituto de Medicina Legal de Lisboa (IML) no próximo dia 12 de Dezembro, pelas doze horas, com vista à realização de perícia médico-legal. Pode fazer-se acompanhar de guarda prisional do EPL para a realização da diligência, que não durará mais do que cinco minutos».



XXX.

A forma é importante. Vejamos como a irrequieta revista Maria, nº 1308 apresenta a seguinte notícia:

«Carlos Cruz tem passado tormentos no EPL. Há pouco, um guarda prisional forçou-o a ficar nu voltado de costas, só para ver se não trazia nada escondido no ânus. A "revista" durou cinco minutos e nada foi encontrado. Embora faça parte do "trabalho normal" dos guardas, Cruz não gostou».

É notável a forma, a forma como se condensa tanta e tão relevante informação em tão poucas palavras. Assim, fica o leitor a saber:

a) Cruz foi forçado a ficar nu, voltado de costas;
b) Durante cinco minutos, um guarda revistou-lhe o ânus;
c) No ânus de Cruz nada se encontrou;
d) Faz parte do "trabalho normal" dos guardas revistarem, durante cinco minutos, o ânus do arguido Carlos Pereira da Cruz;
e) a última, e fundamental: «Cruz não gostou».

Logo, deduzirá o leitor, Carlos Pereira da Cruz não gosta que os guardas do Estabelecimento Prisional de Lisboa desempenhem aquilo que está no seu conteúdo funcional, que é, entre outras valências, passarem-lhe revista ao ânus por períodos não inferiores a cinco minutos.


 
  XXIX.

Clara, Clarinha, tu andavas a pedi-las. Desculpa ainda não teres sido servida neste humilde estabelecimento, mas, haverás de reconhecer, não é fácil lidar contigo.

Primeiro problema: há um enorme abismo entre o que és (uma jornalista «que escreve bem») e o que gostarias de ser (um grande vulto da literatura). E tu sabes isso. A impiedosa Clara-cronista será sempre demasiado severa para com a virtual Clara-escritora. É esse o motivo pelo qual a retumbante novela que guardas há anos nas gavetas da tua imaginação jamais verá a luz do dia. É pena, porque com jeitinho talvez conseguisses escrever uma coisa parecida com o «Equador», para vender bem no Verão e levar para a praia. O teu drama é que querias um «Nostromo» ou uns bons «Karamazov» (2 volumes, tradução directa do bielorusso de Nina e Filipe Guerra, Lda.). Achas que, com o que já leste na vida, tens direito a não menos que isso. O teu talento é a tua tragédia. Com a fama que já tens, tudo o que escrevesses seria sempre «vocês têm o último da Clara Ferreira Alves? Não me lembro do nome». Resumindo: estavas três meses nos tops da Fnac e o resto dos teus dias na ignóbil poeira do esquecimento. Não é isso, em absoluto, o que almejavas. O teu sonho era escrever uma obra de génio numa mansarda tuberculosa de Dublin, vivendo do ar, cafés e cigarros, saindo directamente do anonimato para as páginas do The Western Canon. O problema é que já és demasiado famosa para isso. Tens, portanto, de ir convivendo com personalidades literárias como o Dr. Pedro Miguel Santana Lopes para ganhares o que a tua pulsão consumista reclama.

Segundo problema: a tua pluma é polifónica. Saltitas entre um número variado de registos, do género «colecção Anita» («Anita na Praia», «Anita, Grávida Adolescente», «Anita no Jardim Zoológico», «Anita Vai ao Circo», «Anita no Private Banking», «Anita e o Ouricinho-Cacheiro», «Anita e a Co-Incineração», «Anita no Ballet», «Anita e as Obrigações de Curto Prazo», «Anita Fuma a Primeira Ganza», «Anita na Montanha», «Anita Já Dá Para a Veia»).

Assim, temos:

Clara, Íntima dos Grandes Escritores - «nessas noites loucas do English Bar, em que o Zé Cardoso Pires, cigarro atrás de cigarro, falava a língua de trapos dos marinheiros de Conrad e me ensinava a distinguir as tonalidades dos maltes»; «foi então que o Al Berto se pôs a uivar à porta do Frágil, comme un chien andalou»; «a Pilar deu um soporífero ao José e lá fomos as duas ver a última colecção da Prada e beber um copo num bar de strip masculino com o nome inesquecível La Vagina Hídrica»; «quando o Graham Greene me mirou com aqueles olhos aguados, censurando o meu mais do que óbvio agnosticismo, percebi que Ferreira Alves jamais seria um nome da literatura universal»; «um dos grandes privilégios da minha vida foi ter partilhado com John Le Carré, num incaracterístico bar de hotel das Docklands, a paixão do whisky com soda»; «isto depois da noite tempestuosa em que até de madrugada discuti os direitos humanos em Cuba com Gabo»; «de passagem por Lisboa, Dostoievski telefonou para o jornal à minha procura. Por azar, o meu telemóvel estava sem bateria»; «por vezes, a Sontag irrita-me. Aliás, é recíproco, segundo me disseram»; «o José passou o fim de semana de cara fechada. A Pilar e eu, já tocadas por uns copitos de Marquez de Riestra, Gran Reserva, começámos a disparatar. O José só mostrou os dentes quando, à hora do jantar, nos veio dar a notícia da TV, num sorriso aberto: "Mais um atentado no Iraque, morreram sete americanos". O rosto iluminou-se: "E tinham todos entre 18 e 22 anos de idade!"».

Clara, Repórter de Guerra (esta mete sempre motoristas de táxi e crianças de olhos grandes) - «Abu, o meu fiel motorista («taxi, taxi, lady? Come with Abu!»), levou-me então ao campo dos refugiados. O campo das crianças mortas. Um menino de oito anos, a quem os soldados israelitas tinham tirado a Playstation, olhou-me com a fundura de um ódio de séculos. O ódio que faz levantar muros. Muros de lamentos e sofrimentos, nesta terra eternamente martirizada por uma coisa a que chamam Deus»; «no fim do dia, todos nós, os correspondentes daquela guerra sem sentido, gostávamos de nos sentar à beira da piscina vazia do Walraff’s, a ouvir o som dos morteiros ao longe. O Walraff’s deve ser o único hotel do mundo que tem uma cratera de morteiro na parede do piano-bar. É um lugar onde me sinto bem».

Clara, urbano-depressiva - «o velho sentado no banco do jardim era um farrapo, uma folha outonal que em breve iria ser varrida da existência humana, sem que ninguém desse por isso, sem ninguém se importasse com isso»; «Alice confessou-me que era professora e via nos alunos que a insultavam e lhe cuspiam para cima o único escape que lhe restava para fugir aos intermináveis domingos da sua solidão»; «naquela inesquecível viagem de comboio para Turim, em que o casal de meia-idade à minha frente não trocou uma só palavra»

Clara, cidadã do mundo - «confesso que fiquei embasbacada quando o Papa, virando-se para a Aura Miguel, perguntou se aquela senhorita ali ao fundo, a fumar Partagas, era a Clara Ferreira Alves»; «cá estou de novo na esplanada do mesmo resort de Bali, com as mesmas americanas obscenamente gordas e os mesmos mafiosos russos rodeados de guarda-costas com Uzis»; «saio de Las Vegas sem saudades daquela amálgama pornográfica de néon e turistas japoneses»; «na esplanada, olho com desprezo a multidão que seguia uma menina com um guarda-chuva amarelo. Agradeci a Deus não ter feito de mim uma turista. Como Chatwin, sou e serei sempre uma viajante».

Clara, na intimidade - «esta semana tive obras em casa. Em Portugal, obras em casa é sinónimo de uma aventura. Uma tempestade doméstica, enfim. Os canalizadores, que disseram que chegavam às nove (“esteja descansada, doutora!”), apareceram ao meio-dia, mal-encarados (“porra, cancelaram a conferência do Derrida na Culturgest!”)»; «fiz uma coisa de que sempre me arrependo: arrumar os livros. Nestas ocasiões, encontro sempre uma edição perdida de Proust ou um Beckett que procurava há anos. Perco-me a folhear as memórias dos meus quinze anos, quando já tinha este complexo de superioridade e julgava que viria a ser uma escritora de expressão mundial – pretensão que, de resto, ainda não abandonei por inteiro».

Clara-caprichosa, és tremendamente snob. Mas essa até te desculpamos. Todos sabemos que o snobismo é a forma de disfarçares a banalidade pequeno-burguesa do teu nome, de que te envergonhas. A tua petulante altivez esconde um drama profundo: tens um apelido compósito («Ferreira Alves») que parece marca de vinho branco para temperar a carne. Tara perdida.
 
Friday, November 21, 2003
  XXVIII.

Afinal, quem é o homem da bicicleta?

Na voragem mediática do escândalo Casa Pia, agora que o juiz Rui Teixeira, sedento de protagonismo, decidiu prender para averiguações o cançonetista albino Michael Jackson, passou despercebida a sensacional notícia da acção intentada pelo Professor Doutor Marcelo Nuno Rebelo de Sousa contra o Lic. Álvaro Barreirinhas Cunhal. No aludido processo judicial, o Professor diz ser Manuel Tiago e reclama os direitos de autor da obra «Até Amanhã, camaradas» (incluindo os royalties da adaptação cinematográfica que, como se sabe, foi um êxito de bilheteira a nível mundial). Para provar a autoria da obra em causa, apresentou o Doutor Marcelo a seguinte prova documental:


«O peso externo do capital, representado pelas suas associações (CIP e ALA) é mais aparente do que real. Elas dão-lhe uma fachada «atraente » de democracia burguesa, até eventualmente avançada. A realidade subjacente é outra: a maioria do capital (pelo menos, do grande capital) era e é muito reaccionária, aceitando a custo opções democráticas ocidentais conservadoras, mas já tolerando pouco até uma linha social-democrática.
Como e quando agirá o capital interno (já que o externo actuará por outra via, a do desinteresse ou das pressões sobre a economia portuguesa) – essa uma questão que o post-eleições poderá esclarecer (sobretudo se não triunfar nas eleições, como parece provável, uma orientação de seu agrado)».

São declarações do divertido Professor Sousa, prestadas em 1975 aos jornalistas Almeida Martins, Cáceres Monteiro e João Vaz e por estes publicadas no livro com o título «Para onde vai Portugal?». Estão na página 305. Segundo o Professor, quem escreve assim só pode ter escrito «Até amanhã, camaradas» e o menos conseguido «A estrela de cinco pontas».

O problema, que se encontra nas mãos dos meretíssimos juízes da 3ª Vara Cível do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa (ao Parque Eduardo VII), está todo em provar quem era, no fabuloso romance de Manuel Tiago, o misterioso «homem da bicicleta». O «homem da bicicleta» é indubitavelmente o verdadeiro autor de «Até amanhã, camaradas». O homem da bicicleta que pedalou, ida-volta, aos campos de trabalho de Kolyma, ali ao Círculo Polar Ártico, para perceber que os milhões de seres humanos que aí morreram não passaram de um acidente de percurso na marcha imparável do comunismo universal. No fundo, uma pequena queda de bicla do Sr. José Estaline.

Na contenda Sousa-Cunhal, quem ficará com a bicicleta? Aguardam-se desenvolvimentos.


P.S. - desde Vittorio di Sica, a bicicleta é um adereço indispensável do neo-realismo. Se a Luísa da Calçada tivesse uma bicla ficava o poeta do «Sobe que sobe» sem qualquer assunto. Já o Dr. António Costa, em acção de campanha autárquica ao melhor estilo Marcelo-vai-ao-Tejo, preferiu subir a Calçada de Carriche num Ferrari, contra um burro. Perdeu contra o burro. Ah, e perdeu as eleições (depois de ter anunciado que as tinha ganho e festejado a vitória...).


 
Monday, November 17, 2003
  XXVII.

É sempre um prazer reencontrar Santana Lopes. Na capa do «Expresso», número 1148, de 29 de Outubro de 1994, o título: «Santana Lopes abandona a política em 1995...»
O então Secretário de Estado da Cultura dizia, em discurso directo, que o seu limite de participação na vida política activa «é Outubro de 95». E adiantou: «Isto vai dar uma grande alegria a muita gente».

Só cabe perguntar: Pedro, porque estás há nove anos para cumprir a promessa? Vá lá, não nos dás uma «alegria»?

P.S. - lembre-se que, por causa de uma rábula de João Baião, Santana Lopes já tinha prometido outra vez que deixava a política. E até foi queixar-se do rábula do Baião ao Senhor Presidente da República. Pior ainda: foi recebido!


XXVI.


Cá lemos o suplemento «Mil Folhas», do jornal «Público», edição de 15 de Novembro de 2003. Entrevista com António Lobes Antunes, escritor nacional que ficou assim a uma unha do Nobel. Em todas as suas entrevistas, o nosso Lobito cultiva o ar enfastiado de quem já viu muito, já passou muito, sofrimentos vários, de guerras nas áfricas aos malucos do Bombarda.

O macacão, como é hábito nos que cultivam o estilo blasé «vocês desculpem, mas tenho um pepino enfiado no rabo», diz, a dado passo, que não lê as críticas, pois está muito «seguro» do seu trabalho. Vamos ao discurso directo:

«Ao princípio, fui tão atacado aqui... [o «aqui» deve ser Portugal, porque consta que na Suécia o rapaz até vende bem. Pudera, num país que tem seis meses ininterruptos de luz solar, o que é que um desgraçado há de fazer para passar o tempo, além de ver filmes porno em Super 8 e ler repetidamente, ao som dos Abba, os 432 romances do Sr. Antunes?]

... e curiosamente isso não me afectou. Estava tão seguro do que queria, tão seguro, tão seguro... e ainda estou»

Agora, um clássico:

«Daí eu não ler as críticas...» [na melhor linha de um conhecido professor algarvio, que não dava mais do que 15 min./dia de cavaco aos jornais]

Vai daí, interpela a jornalista, decerto trémula perante o grandioso Antunes:

«Tão seguro em relação a este livro?»

Modesto, replica o meliante:

«Em relação a todos os livros que escrevi. Estava sempre tão seguro. E levei porrada, houve jornais...»

Ajoelhada, prossegue a nossa entrevistadora:

«Em relação aos seus últimos romances...»

O Lobo não dá hipótese:

«Ui! Quer que lhe lembre?»

A moça ainda esboça, respeitosamente, um:

«... não me recordo de críticas negativas.»

Os olhos azuis aguados do nosso descontentamento continuam, castigadores:

«Em relação a todos eles, desde o princípio ao fim. E era-me completamente indiferente. Estava tão seguro, tão seguro...»

QUER-SE DIZER: se a moçoila que mandaram para esta missão difícil tivesse tido coragem e discernimento, deveria ter feito a perguntita fatal:

«Ó Antunes, então tu ainda há dois segundos dizias que não lias as críticas e agora queres-me lembrar as críticas negativas que te fizeram, a «porrada» que levaste? Em que ficamos: lês ou não lês a porra das críticas?»

A questão, claro, é esta: o rapazola gosta de cultivar o blasé. A culpa é do pepino, o eterno pepino no rabo dos ficcionistas portugueses. Portanto, fica-lhe bem dizer:

Primo - eu não leio as críticas
Secundo - eu levo «porrada» das críticas mas não ligo

A primeira proposição contradiz a segunda. E vice-versa. A bota não bate com a perdigota, António. Não me resistias a cinco minutos num interrogatório à Gomes Freire. Então com o magistrado R. Teixeira já estavas de preventiva no EPL a alinhar mais um romancezito. Agora percebe-se porque os teus romances são tão baralhados. Tu até nas entrevistas te embrulhas!

E reincides, logo a seguir:

«Acho que não me posso queixar porque as pessoas são tão entusiastas em tanta a parte... [note-se que os emigrantes também não desgostam do Emmanuel e da Agáta] Estão a chegar as críticas da Alemanha, são inacreditáveis [afinal sempre lês as críticas, mariola!]. Nos Estados Unidos, em Espanha, em toda a parte [e no Togo? E em Vanuatu, onde «Os Cus de Judas» são leitura obrigatória do secundário?]. Agora, o que me parece é que ainda é cedo [o quê? Não me digas que julgas que daqui a 50 anos, quando os teus agentes literários já tiverem batido a bota, ainda haverá quem te leia, tontito?]. Porque os livros também me escapam a mim [leia-se: nem eu percebo o que escrevo]»

Moral da história: António, porque cultivas o look hostimizado? Porque não nos dás um sorriso franco e aberto, como o Zé Cardoso Pires sabia fazer? Nas entrevistas e aparições públicas, o máximo que te conseguimos arrancar é um esgar do tipo «ai-que-lá-se-me-desenfiou-outra-vez-a-algália!», seguido de mais um SG-Gigante (tabaco de homem).

Tu bem sabes que, apesar de um pouco roliço, ainda tens saída. Uma sondagem recente, que por certo não leste, concluiu que, na Grande Lisboa, 63,5% das professoras de Português do 8º ano, na classe das divorciadas, consideravam-te «atraente» e gostavam de te conhecer «ao vivo» (contra 33,4% no mais atrasado Grande Porto). Então, porque te fechas tanto? É género, não é? Género palhaço-pobre. Mas palhaço, em todo o caso. São sete letras. Assim: PA-LHA-ÇO.

Post-scriptum:

Para o caso de não teres lido, a crítica do suplemento cultural do Correio da Golegã dizia que tu, a Florbela Espanca e o TóZé Martinho (sim, também já lançou um livro!) eram as grandes revelações da ficção portuguesa dos anos 90. Força, então, António Antunes!

 
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