Umbigo
Wednesday, July 30, 2003
  II.

Para os habituais editoriais de um suplemento light de um jornal de grande expansão. Mais um trabalho da competente jornalista que o grande público, sempre injusto, conhece como «aquela-que-foi-mulher-ou-viveu-com-o-Miguel-Sousa-Tavares». A New Age no seu melhor. Porque a solidariedade ainda existe. E com tempo para umas comprinhas!



Editorial




No passado fim-de-semana, teve lugar em Sintra mais um encontro anual da Cabacinha-Associação dos Pais e Amigos das Crianças Sem Cabeça. Desde há muito que me convidam para dizer umas palavras nestas reuniões da Cabacinha e saio de lá todos os anos fascinada com a alquimia que nasce numa plateia de crianças sem cabeça, os amigos delas, e os pais também.
Com a tremenda falta de apoios do Estado, não é fácil em Portugal ser pai de uma criança sem cabeça. Pior mesmo é ser uma criança sem cabeça, mas essa não nota. Os muitos pais que me escrevem e procuram (e a quem sou incapaz de dizer “não”) contam-me histórias assustadoras de discriminação e falta de afectos. Falei longamente com eles, tentei gracejar sem êxito dizendo que já deviam estar de cabeça perdida, mas fui incapaz de vencer o amargo desencanto que vi estampado nos rostos de alguns pais de crianças sem cabeça. Há excepções, claro. Algumas crianças sem cabeça são histórias de sucesso: conheço quatro que se licenciaram e têm os seus empregos (em circos) e uma delas, o João, está a fazer o MBA em Londres. A Cabacinha é mais um exemplo de como, mesmo sem subsídios, é possível construir uma vida melhor. Só é preciso acreditar. Carpe Diem. Os pais dizem-me que têm aproveitado para poupar naquilo que não precisam para os seus filhos (óculos, auriculares, bonés, chapéus, bandeletes) e estão a angariar fundos para construir a nova sede da Cabacinha. A Câmara de Loures já cedeu o terreno. Se puder, não deixe de dar o seu contributo.
Nas páginas desta revista, encontrará o depoimento de uma criança sem cabeça. E ainda, como sempre, artigos light «para gajas»: um sobre feng-shui e a importância dos fluidos das pedras nas salas de estar, um texto maravilhoso com o título «A tranquilidade interior» e as nossas inevitáveis sugestões de compras e presentes acima de € 500. Espero que goste de mais este número que preparámos para si.

 
  I.

A melhor sociedade lisbonense anda fascinada com os famosos «textos lindíssimos» de JBC. Para aqueles, muitos, que não querem esperar pelo «Público» com mais um «texto lindíssimo» de JBC, aqui vai um «texto lindíssimo» de JBC. Chama-se





Amor mundi



1. Na curva do caminho para Vestalli há uma pequena abadia, longe da estrada e dos guias turísticos. Entro devagar na solidão da capela, em busca do que há muito os meus olhos perseguiam. Lá estava, não longe do altar-mor, a pequena maravilha que nas longas tardes da meninice contemplei reproduzida no álbum de gravuras que existia em casa dos meus avós. La Donna e la Ragazza, de Calippo Calimero, uma alegoria das idades da vida, dava-se agora diante de mim, na penumbra do altar-mor de uma abadia lombarda de que nem sabia o nome. Ali fiquei, olhando longamente o delicado traço do colo da senhora desconhecida que Calimero pintou circa 1556.
Saio para fumar um cigarro agnóstico e deixo que os meus passos me conduzam pela alameda de ciprestes que leva ao antigo refeitório dos monges. Os ciprestes despertam os mortos adormecidos que trago comigo. Nessas alturas, penso sempre em Guicciardini, um florentino dos Orto Oricellari: «É um facto notório que iremos morrer. No entanto, vivemos como se fôssemos viver para sempre».

2. Na piazzeta de Vestalli, folheio os jornais do dia, que um turista alemão ali deixou por desleixo. Ou seria o destino a anunciar-me que na véspera morrera Katherine Hepburn? Deixo deslizar os meus dedos pelo jornal, passando as mãos no rosto anguloso da rainha africana da minha juventude, senhora muito lá de casa e de todos os meus tempos. «Entre a Audrey e a Katherine mon coeur balance», dizia-me o António Alçada, com os seus olhos travessos, numa tarde de chuva miudinha à porta da Moraes. Uma tarde em que a Helena e o Alberto ainda discutiam como reagir ao «caso» do Béjart. Pouco dado a artes de palco, eu nem sabia bem quem era o Béjart. Encontrei-o anos depois, num festival de cinema nas Molucas, e, quando lhe confessei a vergonha que na altura tive de ser português, confessou-me que já nem se lembrava do salazarento incidente. Mas eu lembro-me de tudo o que não vimos e ouvimos nesses anos em que éramos muito novos e muito felizes. No tempo que me resta, terei dias para me vingar daqueles que furaram os meus olhos?

3. Deixo Vestalli e estes pensamentos edipianos. A patroa espera-me na hospedaria onde sempre me alojo e oferece-me uma pasta divina, que acompanho a golpes de Chianti e cigarradas. Preciso manter esta voz cava de barítono que constitui uma das minhas imagens de marca. O afilhado da mamma, cinéfilo impenitente como já restam poucos, espécie em vias de extinção incapaz de se render à tirania do vídeo e do digital, queria falar comigo sobre a textura da luz branca do último Oliveira. O Amaretto di Saronno, porém, toldava-me o espírito e preferi ir para o quarto, tentando conciliar o sono e a música dos sonetos de Petrarca que sempre me acompanham nestas jornadas italianas. No tecto do quarto, uma antiga cela beneditina, projectavam-se sombras buxuleantes e perfis ocultos, como num filme de Murnau. Seria já o sonho que, numa fábula onírica de gosto duvidoso, reflectia nas traves o perfil rubicundo da minha calva? Procurei dormir. Na vigília, acorreram-me à memória as palavras de Lampedusa de Il Gattopardo: «Il sonno..., il sonno è ciò chie i siciliano vogliono». Com as sombras expressionistas no tecto do quarto, continuei às voltas e reviravoltas na cama áspera da cela beneditina. Corsi i ricorsi de um mamute congelado nos anos sessenta.

4. Se houve um Deus católico em Auschwitz, era um católico não praticante.

 
Fazer amigos

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