Umbigo
Thursday, August 28, 2003
  XI.



De que falamos quando falamos de uma «Grande Senhora»? Geralmente, de fado. A «Grande Senhora» do fado não é, ao contrário do que pensa a comunidade gay lisbonense, a «dona Amália», mas sim a Srª D. Hermínia Silva, como todos sabem ou deviam de saber.
É possível, em todo o caso, explorar a plasticidade do conceito de «Grande Senhora» e estendê-lo a outras realidades. Assim, por exemplo, é indiscutível que, a par de Agustina, Guilherme de Melo pode legitimamente ser considerado uma «Grande Senhora» das letras nacionais. Ainda que já um pouco empalhado, Eládio Clímax é também, seguramente, uma «Grande Senhora» da televisão portuguesa.
No respeitante aos jornais, a designação de «Grande Senhora» é tão evidente que não carece ser nomeada.
Eis, pois, uma crónica da Hermínia Silva da nossa imprensa escrita:


O pátio anda alvoroçado. A fiel Maria Augusta foi buscar carapaus para o almoço, que a Zézinha e o Jaime vieram de propósito de Madrid para estar connosco. Há noite, vou onde sempre se dirigem os meus passos: o Oeste. Há o lançamento de um livro de um jovem poeta e professor do secundário da Lourinhã, Arnaldo Bastos (quem olha para estes valores?), com o título «Mares Gelados». Não quero perder. Mas, até esse momento esperado, que correria! Ida ao cabelereiro (o Lalu, um brasileiro que conhece melhor as minhas madeixas do que eu própria), ler os jornais do dia (e não há mais nada do que a Casa Pia? Finis patriae!), passar pelo novo estádio do «glorioso» para (mais) um copo com o Manuel Vilarinho e, claro, o indispensável café na «Kindy», a pastelaria onde ouço as estórias da gente simples do bairro. Entretanto, a filharada pressente-se na velha casa. O Bernardo trouxe uns amigos para fazerem um trabalho no computador e deitaram-se às tantas, por entre livros de Física e Astronomia (um pandemónio!). A Matilde quer começar a aprender culinária com a pobre da Maria Augusta e a cozinha está num caos, com «palitos Larrène» e «marquises au chocolat» que não resultaram (no meu tempo, uma jovem bem nascida tinha apenas de guiar-se pelo Pantagruel e pelos conselhos das criadas).
Cinco da tarde: passagem pela SIC, dois dedos de conversa com o Francisco (ainda o mesmo fato queimado dos tempos terminais da AD!) e deito-me a correr para o Méridien. Não posso faltar à «vernissage» de um amigo, o Lourenço Távora, e fico fascinada com as cores suaves da sua mostra «Quadros Para Átrios de Hotel». A música de Richard Cleyderman acalma-me. Mas tenho de me despachar a caminho do «meu» Campo Grande.
Sete: a luz, a eterna luz de Sophia, cai sobre a cidade. Mas como gozá-la? Trânsito infernal (então, doutor Santana Lopes?). Telefono à Sum-Sum para saber como correu a última produção (diz-me que há um modelo novo do Zimbabué, de um ébano azulado espectacular). Uma breve passagem pela Hermès do Chiado para ver se me facilitam uma carteira e uma «écharpe» para a noite («Na terça devolvo, Sueli!!!» – grito da porta para a balconista brasileira, que me olha com um ar ainda atordoado). Ufff!!! Chegada a casa, fazer o saco, dar umas boas taponas nesta atrasada da Maria Augusta (com 109 anos de idade, 103 de casa e ainda não sabe abrir o Outlook para ver se lhe mandei algum recado por e-mail! Não é um desespero?). Ainda tenho de levar os cães a passear no pátio, onde aproveito para trocar umas impressões sobre Nietzsche e Georges Sorel com o Jaime. A Zézinha já fechou a casa de Madrid. A Misericórdia está a dar-lhe um trabalhão. Por isso, não quero incomodá-la no seu banho «relax» de camomila e cascas de batata. Quem me dera fazer o mesmo! Mas é forte, muito mais forte, o apelo do Oeste. «É para lá onde regresso/Sempre que quero ser/Flor de Combate/Rosa, rosando em botão de Abril/P’lo mar dentro em busca do sargo/Sargo, sargaço, sarda/Muita voz há para ela/Para esta voz de barítono/Um barítono do Oeste» (Manuel Alegre, «Ode à Porcaria das Praias Geladas do Oeste», um poema magnífico do seu último, imperdível, «Arte de Marear»).

mjavillez@expresso.pt


 
Tuesday, August 26, 2003
  X.

Prezado Professor João César das Neves

Sabemos que anda muito ocupado. Entre o mais, a arranjar aquela risca do seu cabelo que lhe dá o ar distinto de gerente do balcão da CGD do Largo da Graça. Por isso, disponibilizámos um texto que certamente não desdenhará subscrever. Numa altura de aperto, é com o maior prazer e devoção que o autorizamos a publicá-lo como se fosse da sua autoria. Não precisa, como alguns agnósticos, de recorrer à «New Yorker» ou outras publicações hedonistas. O trabalho chama-se «A Cruz de Einstein» e foi um pouco escrito a pensar em si:


A Cruz de Einstein

A Cruz de Einstein é um fenómeno em que a luz de um quasar situado a uma distância de cerca de quatrocentos milhões de anos-luz do nosso planeta se dobra no seu trajecto pelo campo gravitacional de uma galáxia, produzindo quatro imagens brilhantes no espaço.

É extraordinário pensar que um dia, numa casa de Ulm, houve uma criança que chorou e dormiu para desvelo dos seus pais, e que o apelido dessa criança acabaria por ser inscrito na poeira das estrelas, nomeando um fenómeno velho de quatrocentos milhões de anos.

Uma tal maravilha só é concebível se acreditarmos que naquele bebé adormecido em Ulm havia a centelha de algo maior que o universo, a Cruz de Einstein e o ser humano que lhe deu o nome.


Gostou? Pode usar quando quiser.
 
  IX.


Importa guardar para a posteridade um delicado fragmento do leve texto que, a propósito da obra «Os Lusíadas», Filipa Melo (escritora e jornalista) deixou publicado no jornal «Expresso» nº 1608:


«Reencontrei Os Lusíadas já na idade adulta e li-o, não com a talvez desejável disciplina e respeito pela continuidade e totalidade do poema, mas com toda a atenção focada na oficina camoniana subjacente à construção narrativa, à essência épica e à inspiração lírica que a envolve.
A questão maior e mais grave, a de me posicionar perante a tradição de uma nacionalidade firmada na real e objectiva grandeza do feito dos Descobrimentos, mas também na sua (des)responsabilizadora mitificação, só a resolvi muito recentemente, quando, para a revista «Egoísta», me propus escrever um conto que tomasse Portugal como figura heróica. E foi precisamente no confronto do Canto V e do episódio do Adamastor com A Mensagem e o seu Monstrengo que confirmei a possibilidade de uma releitura da lição nacional camoniana. O que em Camões eram tentativas de superação do desânimo nacional já instalado e de recuperação da glória épica agora num novo cenário (Norte de África), em Pessoa, já sem Índias para desvendar, redescobri-o como uma chama alimentada por aspirações desencantadas, mas ainda convictas das potencialidades futuras, espirituais, dignas de um povo. Em ambos, o respeito pelas heranças do passado é motor de futuro, essencial lição de sentimento nacional, à qual, de facto, nenhuma geração deverá permanecer indiferente ou ignorante».

Que fazer?






 
Tuesday, August 19, 2003
  VIII.


Correspondendo a um insistente apelo da Oficina do Livro, S.A. (porque não «Companhia do Livro» ou «Coisas de Livros»?) procede-se de seguida à pré-publicação de fragmentos esparsos de Sem Mamas, já conhecido como «o próximo sucesso de Margarida Rebelo Pinto».

No press release fornecido pela casa editora, esta orgulha-se de publicar, além de valores seguros como «a Margarida», textos de autores alternativos. Eis os seus depoimentos:

«Devo à Oficina do Livro, editora que aposta também em títulos de circulação lenta, a publicação do meu trabalho A Política, pela qual esperei tantos séculos. A Oficina mudou a minha vida» (Aristóteles).

«Também disseram que os meus Essais eram fúteis mas, pelos vistos, têm saído bem» (Montaigne).

«Só na rede Continente consegui colocar cerca de 10.000 exemplares do Finnegans Wake. Assim dá gosto trabalhar» (James Joyce).


Vamos então ao primeiro capítulo de Sem Mamas, «o próximo sucesso de Margarida Rebelo Pinto»:





Merda!
A campainha da porta não parava de tocar. Estava atrasadíssima.
O Rodrigo, sempre querido, passara para me buscar para o meu primeiro dia de trabalho. Era ele, de certeza (o canalizador e o carteiro têm a chave).
Arranjo-me à pressa, ponho um pólo branco e umas calças limpas. Checar se tenho tudo: o telemóvel, o molho das chaves, o maço de Marlboro Light, o creme de algas e o último Paulo Coelho (não sei o título, mas mexe cá dentro). Pronta para o primeiro dia! Do resto da minha vida...
Cá fora, o Rodrigo espera-me encostado ao carro, a folhear displicentemente o TLS por detrás de uns óculos escuros que escondem o olhar que grita: «Não percebo nada do que está aqui escrito mas tenho de impressionar a miúda». Este pensamento deixa-me lisonjeada. Esboço um leve sorriso, que o Rodrigo interpreta como nervosismo de primeira dia de trabalho.
- Não, não estou nervosa. Só estou um pouco tensa. Mas isto passa-me.
- Acalma-te bébé (odiava quando me tratava assim). Vais ver que toda a gente vai gostar imenso de ti lá na empresa.
- Prontos, já passou. Já estou um pouco melhor.

***

Cinco da tarde. Acabou-se o primeiro dia de trabalho. Foram todos muito simpáticos comigo na empresa do pai do Rodrigo. E já aprendi que se carregar ctrl+alt+del o écran fica todo branco e é uma seca.
O Rodrigo, já de casaco pelos ombros e com a gravata de ursinhos (horrorosa!) a meia-haste, convida-me para jantar. Hesito. O Rodrigo é querido, mas sei que não posso dar-lhe esperanças.
«A menina lembre-se sempre que é uma Pele de Cão e os Pele de Cão não se misturam», dizia-me a avó Lena em miúda, quando eu saía para brincar com os filhos dos caseiros da quinta.
É verdade. Trago sobre os ombros o peso de ser uma Pele de Cão. E o Rodrigo é um Pulguinha. Há gerações que, fazendo jus ao nome, os Pulguinha tentam misturar-se com os Pele de Cão. Imagino o apelido de casada: «Pele de Cão Pulguinha». Que horror! Se ainda fosse «Pulguinha Pele de Cão». Como poderia ter filhos dele?

- Vamos, bébé?, insiste o Rodrigo. Fico com pele de galinha.

Sei que os Pulguinha ajudaram os Pele de Cão a seguir ao 25 de Abril, quando fomos para Madrid e o Pai gastou o que nos restava a jogar gin-rummy no Ateneo com o doutor Jaime Nogueira Pinto (e rematou fugindo com uma dançarina do histórico Pasapoga). Triste destino, o do Pai. Empresário católico (com preocupações sociais) nos tempos do marcelismo, culminaria a sua carreira profissional como arrumador num teatro de zarzuela da Calle Calderón. Ainda me lembro do mano mais velho, o Gumersindo, a pôr uns Ray-Ban anos 70 e fazer-se de ceguinho para ir buscar o subsídio da Once com que dava de comer à Família. Decididamente, a história da nossa «revolução dos cravos» ainda está por fazer...

Tenho mixed feelings em relação ao Rodrigo. Será que estou a criar-lhe falsas expectativas? Ou estarei a tratá-lo assim por gratidão pelo que fizeram pela Família? A última coisa que queria era brincar com os sentimentos do Rodrigo.

- Não, Rodrigo. Obrigada, mas estou um pouco cansada.
- É a descompressão do primeiro dia, miúda. Olha, vai para casa tomar um duche que eu apanho-te às nove e vamos comer um sushi a um sítio fantástico à beira-mar que eu conheço. Com sorte, ainda podemos ver o pôr-do-sol junto ao caneiro de Algés.
- A sério, Rodrigo, estou cansada. Obrigada.

***

Não me perdoo a mim própria ter-lhe mentido. Mas qual a mulher que não trocaria um jantar com o Rodrigo por um encontro com as amigas dos tempos do colégio?
Houve uma altura em que achava os «jantares-galinha» (como nós lhe chamamos) um tédio. Todas tinha acabado de ser mães (sauf moi!) e só falavam de fraldas, crianças e das vantagens da amamentação intravenosa. Agora que está tudo divorciado voltaram a ter graça. Ou serei eu que estou a ficar velha?
- Não, não é nada do que estão a pensar. Juro!
- Cuidado com o Rodrigo, menina... É um predador. Já nos passou a ferro a todas e só faltas tu para o palmarés!
- Palmarés ou ranking?, pergunta a Sophia, mediterrânica, sempre nas suas nuvens poéticas.
- Ranking é no ténis, palmarés na Fórmula Um, diz a mais pragmática Agustina (um romance/semestre).
- De ténis, percebes tu, Agustina..., replica a Lídia, numa alusão obscena, que todas partilhámos, ao caso que aquela mantinha com o seu personal trainer.
- Ó Lídia, desde que publicaste os «Guindastes» estás impossível!
Irrompemos todas numa gargalhada. Uns executivos japoneses, sentados na mesa do lado, deitaram-nos um olhar reprovador. No Japão não deve de haver mulheres independentes.

***

O Pedro leva-me ao Algarve a passar o fim-de-semana. «Agora com a auto-estrada é uma maravilha». 98% das pessoas na área de serviço estavam a dizer isto. «Em duas horas pomo-nos cá» «Sim, duas horas, duas horas e meia, faz-se». «Não. Duas horas». Sim, duas horas, duas horas e meia». «Duas horas e mais nada!» (este diálogo entre cunhados prenunciava 15 dias de férias estragadas para duas famílias da região de Aveiro). Os restantes 2% da esplanada liam sagas islandesas medievais no original.
À noite, a Casa do Castelo abarrotava de gente a dizer que detestava «o social».
Vestido de homenzinho (par une fois...), o José Castelo Branco diz-me que o taxidermista anda a ter montes de trabalho com a Betty:
- O problema é que ela está sempre a mexer-se!

Vejo ao longe o Gonçalo e a Mitilene. Ainda hoje me envergonho sempre que os encontro. Sei que não me devia ter metido com o marido da minha melhor amiga. Para mais, eles pareciam sempre tão bem um com o outro, uns filhos loiros na praia, giríssimos. Mas teve de ser. Eu não queria, mas a autora deste Sem Mamas obrigou-me.
- Ou te metes com o Gonçalo ou ponho-te paraplégica num acidente de viação logo na página 4!
- Não posso ao menos entrar em coma num desastre hípico lá para a página 53?, ainda tentei negociar.
- Não! Já tenho marcada a plástica com o Chico Ibérico e o livro tem de sair para a reentré! Não vês que o meu agente diz que tenho de incrementar o peito? Sou o autor da Oficina com menos mamas, homens incluídos! Estou farta que me chamem «Tábua d'Arrasar»! E um affaire com o marido da melhor amiga é um clássico que vai sempre bem.
- Prontos, aceito. Mas arranjas-me ao menos um dos teus «orgasmos inesquecíveis» que se prolongue aí pelas folhas 44 a 46?
- Vou ver o que se pode fazer. Mas não prometo nada, replicou, ríspida, a Autora.

Foi assim que me vi num quarto do Albatroz a trair a minha melhor amiga. A Mitilene, que horror! O que nós passámos juntas: os primeiros charros no Ramalhão, comprados à madre Purificación, os amores de Verão em São Martinho, as batatas fritas de praia, a primeira IVG, baratinha, na Clínica Los Arcos. E quando eu tive de lhe explicar que «clímax» não era uma marca de tampões? Tanta coisa! Se ao menos fosse a Nampula ou a Cunene, essas parvas. Mas agora a Mitilene era demais!
Com o Gonçalo por cima de mim, uivando «Goooolo!», olhava o salitre marinho no tecto do quarto e percebi que tinha de dar uma volta à minha vida. O Gonçalo terminou com um lancinante «Tora! Tora! Tora!».
Na manhã seguinte, o groom, rapaz onde despontava o buço, olhou-me com o sorriso trocista de quem cala cumplicidades lúbricas («Nestes livritos a menina passa a vida aqui no hotel. E é página-sim, página-não com um homem diferente. Granda puta me saístes!»). Estava destroçada. Ao que descera a linhagem multissecular dos Peles de Cão!

«A menina lembre-se que é uma Pele de Cão...». O aviso da avó Lena ecoava nos meus ouvidos. «E os Peles de Cão não se misturam».

Saí do hotel decidida. Tinha de falar depressa com outros personagens de Margarida Rebelo Pinto. E isto antes que ela percebesse! Não havia grandes riscos, pois a Margarida não volta atrás para ler o que acabou de escrever (como está a acontecer com este texto, por exemplo). Tinha portanto alguns dias antes que o Sem Mamas chegasse aos hipermercados.
O telemóvel foi uma grande invenção do século XVIII. Nuns minutos, tinha reunido nada menos que 34 personagens de Margarida Rebelo Pinto. Alugámos um polidesportivo inacabado em Agualva-Cacém e lançámos nessa histórica reunião exploratória as bases organizativas daquilo que veio a ser o Sindicato dos Personagens de Margarida Rebelo Pinto (SPMRP). Neste momento, não posso, nem devo, omitir o apoio que, na fase inicial do SPMRP, nos foi dado pelos camaradas do mais experiente Sindicato dos Personagens de Maria João Lopo de Carvalho (SPMJLC). Obrigado! Ainda embrionário, o Sindicato dos Personagens de Cristina Caras Lindas (SPCCL), pelas suas atitudes cisionistas, não tem sabido dar-se ao respeito do operariado e do mundo laboral em geral. Lamentamos dizê-lo, mas é uma verdade.

O caso é sério. A vida de um personagem de Margarida Rebelo Pinto não é fácil, acreditem. Escravizados sexualmente, somos obrigados a trocar de parceiro uma média de 7,03 vezes em cada romance de 150 páginas. Devo acrescentar que este comportamento de risco não é acompanhado, como bem devia, dos respectivos testes de HIV. Além disso, ninguém nos livra da Margarida acordar mal-disposta e matar-nos num acidente de ski em Courchevel logo ali ao virar do segundo capítulo, deixando uma ranchada de filhos por criar. Por bem conhecido do grande público, escuso-me ainda de aprofundar o drama da nossa colega de ofício, a pequena Martha Telles de Menezes, que no Sei Lá foi violada por um grupo de 423 lapões (repito por extenso: quatrocentos e vinte e três lapões) num fim de semana alucinante nos fiordes da Noruega. Quem se lembra dela? A Margaridinha não é de certeza!
Não temos contrato de trabalho nem subsídios. Nem há horários. Para mais, como a Margarida é muito desleixada com os enredos, revelando total desconsideração para com os seus empregados, já aconteceu a um rapaz, que pretende guardar o anonimato, encontrar-se no Lux às 5 da manhã e em Búzios meia-hora depois. Haja mais respeito por quem trabalha, Margarida! Um homem (neste caso, um personagem) não é de ferro!
Quanto às chamadas «regalias da empresa», essa figura mítica do mundo laboral, deixam-nos beber bons vinhos brancos e dormir em hotéis de luxo na Quinta do Lago mas é tudo tão a correr que nem temos tempo de gozar nada daquilo. Além disso, quando vamos para esses sítios bons vamos em trabalho. Não vamos a passar férias. O patronato (neste caso, a Margarida, mas podia ser outrem) anda a encher-se à nossa conta e não vê que, para usar terminologia fiscal, somos uma profissão de desgaste rápido. Daqui a dois ou três anos ninguém se lembra de nós. Daqui a dez anos ninguém se lembra sequer de quem foi a Margarida Rebelo Pinto, com mamas ou sem.
Sim, e agora eu pergunto: nessa altura, quem é que vai olhar pela gente? Quem é que se vai preocupar com os nossos filhos, que entretanto cresceram e ganharam corpo? É a Oficina do Livro que lhes vai pagar os estudos?
Na última ronda de negociações com a entidade patronal, fizemos uma proposta honesta e exequível: por cada exemplar vendido do Sem Mamas reverteria um euro para a Casa do Artista-Personagem de Margarida Rebelo Pinto, IPSS. Não daria para tudo, mas sempre era uma ajuda. O nosso caderno reivindicativo passa ainda pelo reconhecimento, por parte da administração tributária, do estatuto de «atletas de alta competição» (dada a frequência dos nossos contactos sexuais) ou de «profissão de desgaste rápido» (pelas razões atrás enunciadas).
Por ora, enquanto não abrimos a já tradicional conta de solidariedade na Caixa Geral de Depósitos, pedimos-lhe tão-só que auxilie a nossa campanha adquirindo Sem Mamas, certamente um próximo sucesso de Margarida Rebelo Pinto.

 
Tuesday, August 12, 2003
  VII.



Apesar de nos servir o mesmo prato vai para uma série de anos, e de quando em vez forçar a metaforazinha sem graça, não há dúvida de que o Doutor Quitério criou uma «escola». O problema está exactamente aí. Na «escola» Quitério. Depois de Quitério, o Velho, toda a gente que escreve sobre «coisas de comer» tenta escrever como Quitério. Até miúdos de vinte e poucos anos, que invariavelmente se designam a si próprios como «escribas» («entrou o escriba no santuário de degustação», «o escriba atacou de seguida o mítico pata negra do Botín»...). As críticas gastronómicas portuguesas tornaram-se, assim, em fastidiosas variações em torno do inconfundível estilo-Quitério. Lá estão sempre os mesmos arcaísmos à espreita em cada parágrafo, as pitadas literárias para mostrar que o pessoal da crítica gastronómica não é só enfardar, os requebros de escrita nascidos de uma relação contra-natura entre Camilo Castelo Branco e Astor Piazzola. O estilo-Quitério, enfim. Mesmo Quitério imita Quitério de há muito tempo a esta parte. Há excepções claro: o volumoso crítico musical/gastronómico do DNA nem a porra de uma crónica à la Quiterio é capaz de confeccionar. Mas as suas incursões sobre caipirinhas e margaritas ficam sempre bem num suplemento ultraleve, que mais não é que um pretexto para mostrar gajas com mamas.

Como sintetizar o estilo-Quitério?

1) Comece por um enquadramento do lugar, se possível com duas ou três referências eruditas e, melhor ainda, de autores oitocentistas. Camilo ou Eça fazem sempre um bom acompanhamento. Em caso de aperto, admite-se Aquilino, mas só por causa dos seus pergaminhos reviralhistas. Estrangeiros, nunca.

2) Depois, faça um soufflé da sua crónica, de modo a que a mesma, ainda que escrevendo pouco, tenha o número de caracteres suficientes para pagar a renda de casa no final do mês. O segredo: copie toda (repete-se: toda) a lista/ementa/cardápio/menu/carta para dentro do texto. Não esquecer os preços.

3) Desenvolva o texto com recurso à económica técnica «bitoque». Como o próprio nome indica, a técnica «bitoque» consiste no trabalho da frase a dois toques, de preferência de forma disjuntiva: «serviço atencioso, mas sobre o demorado», «lista de vinhos curta, mas honesta» e por aí fora.

4) Guarde no final umas linhas para descrever o espaço, mesas e talheres e mais umas palavras para atendimento e diversos.

5) Atenção: o estilo Quitério é um estilo viril, macho, de homem para homem. Mulheres e outra bicharada devem abster-se de imitá-lo.

Um exercício difícil: o MacDrive de Louriçal do Campo


«Entra-se numa curva da estrada nas faldas da Gardunha e está o viandante em Louriçal do Campo. «Povoação pequena e formoza, destaca-se pela frescura das águas e riquesa de seus soitos», informa-nos o sempre útil Pinho Leal. Dos soitos de carvalhos que, reza a lenda, abrigaram as tropas de Junot, é que viste-los nesta era de «pugresso», como diria um nosso antigo primeiro. A paisagem, que mereceu um tenebroso poema de Gomes Leal, encontra-se agora conspurcada por «maisons» de emigrantes, bares de alterne e casas de «fast food». Ao final da Rua Direita, junto ao adro da Capela da Assunção, encontra-se, majestoso e impante, o

MacDrive


Espaço de degustação amplo e arejado, amesendração limpa e condizente. Decoração sóbria, como convém. Pouco cuidado na utensilagem de manducação, que se não encontra à vista do freguês incauto. Se pretender talher, deve pedi-lo à simpática menina do balcão.
Em matéria de entradas, escolheu-se, na primeira investida à casa, o «Chicken MacNuggets» (3 euros). Pedacinhos de frango, em que o lerdo palmípede vem levemente crostado, e é embebível em dois molhos à escolha: «rodeo», numa escusada homenagem ao imperalista George W., ou «barbacue», alusão frescalhota aos glúteos traseiros de dona Barbara Bush, mãe do referido George.
Seguindo-se as coisas sérias, que os eflúvios de Louriçal abrem os apetites, regista o cardápio, em ordem ascendente de preçário, o «MacRoyal» (4 euros), o «MacDe Luxe» (4,5 euros), o «Mac Iver» (6 euros) e, para quem tiver estômago e carteira para tanto, o «Mac Super De Luxe» (12 euros/para duas pessoas). Lista de vinhos a roçar o curto, mas bem seleccionada.
O «Mac Royal» apresentou-se escorreito nos temperos. Acompanhamento honesto de batata frita no ponto. Enquanto D. Júlia se mantiver a capitanear os fogões deste «Mac Drive» poderá descansar o visitante na qualidade da batata frita: sempre no ponto, sem óleos ou outros modernismos.
Avançou-se de seguida para um «Mac De Luxe», menos conseguido no modo como se trataram as carnes do reco. O simpático bichinho que nos foi submetido à apreciação já devia ir entradote na idade adulta, pelo que a sua vianda deixou um travo sobre o àspero no palato. Assim não, dona Júlia!
Na segunda viagem, debicou-se o «Mac Iver», que surge apresentado à maneira tradicional, seguindo a receita canónica do inultrapassável Oleboma, agasalhado em duas fatias de pão caseiro com sésamo e acompanhantes molho da casa. Valorosa batata, como de hábito.
Em capítulo doceiro, ficaram os olhos no «sundae» de pêssego (3 euros), mas tivemos de nos contentar com um «muffin» de chocolate (2 euros), que deu boa conta do recado. Chegou à mesa em excelente forma, fresco e apetitoso, e de vê-lo a comê-lo foi um instante.
Rematou-se o ágape com aguardente do Louriçal, com gosto de papel timbrado dos tempos da Brasileira de Prazins. Preços sobre o carote, mas um dia não são dias. Serviço discreto, mas eficiente.
Enquanto dona Júlia se mantiver por lá, este «Mac Drive» vale a viagem. Tudo somado e repartido, nota francamente positiva para esta casa e desejos sinceros de que assim vá caminhando, como diria nuestro hermano Antonio Machado».

MacDrive
Louriçal do Campo
Estrada da Gardunha
Encerra às quintas
Aceitam-se cartões de crédito

 
  VI.

O «Expresso-Economia», de 9 de Agosto de 2003, publicou, na sua página 12, uma notável entrevista com Gonçalo Reis, assim apresentado por aquele prestigioso semanário: «Gonçalo Reis, 34 anos, é administrador da RTP. Casado de fresco, licenciado em Economia pela Católica, tem um MBA tirado em Chicago. Fundador do grupo de reflexão Missão Portugal, foi também deputado do PSD durante três meses. Gosta de pessoas que acreditem no futuro. Os piores defeitos são o medo e o imobilismo».
Na histórica entrevista, da responsabilidade da jornalista Ana Rodrigues, o jovem administrador da RTP profere, a dado passo, a seguinte afirmação:

«Optar significa escolher»

Meditemos nesta frase. Paremos a azáfama dos dias para pensarmos como é possível um jovem de 34 anos produzir reflexão tão profunda. Interroguemo-nos sobre qual o lugar onde se deu a gestação de um pensamento tão denso: a licenciatura à Palma de Cima, o Masters nas Américas ou os três meses por corredores de S. Bento. Inclinamo-nos a julgar – mas isto é apenas uma intuição! – que só a pertença a um grupo de reflexão (no caso «Missão Portugal», mas podia ser outro) permite alcançar toda a complexidade de uma frase que Wittgenstein não desdenharia: «Optar significa escolher».

A entrevista, cuja riqueza aqui não poderemos reproduzir na íntegra, apresenta ainda outras pistas para uma nova filosofia. A muito custo, seleccionaram-se as seguintes reflexões:

«Não podemos continuar a ser um país de remendos»

«Deve ser evitado tudo o que seja proteccionismo e reduzir a tónica nas políticas sectoriais para as políticas transversais»

«Para fomentar a inovação só tem de se abrir a concorrência e abrir os sectores»

«Quem tem quota de mercado tem de se adaptar»


É a este jeune philosophe que se encontra confiada a administração de uma empresa com 1800 trabalhadores e 230 milhões de euros de custos operacionais no ano corrente.
 
Wednesday, August 06, 2003
  V.

Pela página nº 4 do Suplemento DNA, nº 348, de 2 de Agosto, ficou o País informado de que o jornalista Pedro Rolo Duarte, numa quinta-feira, sozinho em casa, jantou lulas à sevilhana congeladas, da firma Pescanova. Como exemplo de umbigada, é difícil encontrar melhor.
 
Tuesday, August 05, 2003
  IV.

Como diria EPC, que em breve esperamos contemplar, os textos do Grande Arquitecto são marcados por uma lógica discursiva desarmante na sua linearidade binária. Para escrever um texto como o Grande Arquitecto, precisa apenas de misturar com água, com muita água, os seguintes ingredientes:
1º - maniqueísmo: contrapor, a golpes de frase curta (e uma frase/um parágrafo), duas realidades, de preferência inesperadas (o locus classicus nesta matéria é a inesquecível crónica de António Pinto Leite no «Semanário» dos anos 80 com o título «Eanes e Stéphanie», ainda hoje analisada, sem sucesso, nas melhores escolas monegascas de ciência política e de jornalismo);
2º - umbigo: tropo literário que se caracteriza pelo uso frequente de expressões do tipo «como já escrevemos nesta coluna...», «há dois meses, dizia...» (= «é triste ter razão antes do tempo» ou «oh, o que custa, rapazes, ser um visionário neste adormecido Portugal!» ou ainda «tenho este ar permanentemente chateado não por causa de ser hirsuto que nem um cacheiro e possuir sobrancelha única, mas porque ninguém dá ouvidos à clarividência dos meus avisos»);
3º - remate - o texto deve terminar com uma frase que dê o ar que se está perante um esmagador tratado de lógica, ou seja, que não se trata de uma opinião pessoal do Grande Arquitecto mas antes de uma conclusão extraída através de processos dedutivos usados nas mais selectas escolas austríacas e inglesas de filosofia analítica. Uma conclusão que, modesto, o Grande Arquitecto se limita a anunciar urbi et orbi.

Um exemplo prático. Exercício nº 1:

Siameses

A semana que passou foi marcada por dois grandes acontecimentos.
Em Singapura, a operação de separação das gémeas iranianas fracassou.
Em Portugal, continuou a falar-se da possível candidatura a Belém de Mário Soares e Cavaco Silva.
Ora, como tenho defendido nesta coluna, considero que Soares e Cavaco são gémeos falsos.
Não são gémeos siameses.
Cavaco é filho de um gasolineiro de Boliqueime.
Soares é filho de um ministro da I República que se converteu em pedagogo e fez um Atlas Geográfico Universal que teve, pelo menos, 23 edições.
Cavaco estudou em Inglaterra.
Soares ensinou em França.
Cavaco gosta de trepar em coqueiros.
Soares gosta de montar tartarugas.
Cavaco é um asceta.
Soares é um sibarita.
Cavaco é um cara-de-pau.
Soares é um cara-de-bolacha.
Cavaco gosta de bolo-rei.
Soares gosta de ser o rei do bolo.
Cavaco escreveu a sua própria biografia (e saiu uma bela merda).
Soares preferiu escrevê-la através de uma idiota útil que meteu perguntas simuladas pelo meio e no final assinou o nome.
Cavaco é magro.
Soares é gordo.
É por isso que, como tenho sustentado nesta coluna, Cavaco Silva e Mário Soares não são irmãos siameses. E, como não são siameses, não precisam de ir a Singapura.
 
Friday, August 01, 2003
  III.

Agora um fragmento da desconhecida revista New Yorker para inspirar a nossa bióloga mais que tudo:

«Portuguese ducks (e.g. patós) don't read American sophisticated magazines, so I can copiate like a pig (e.g. copiar que nem uma porca) without being topped (e.g. sem ser topada). Until the day... (e.g. até ao dia...). But while the sticks goes and comes, the back is having fun (e.g. mas enquanto o pau vai e vem, folgam as costas). Back with tatoos (e.g. costas com tatuagens)» (New Yorker, June 30, 2003, United States $ 3.95, Canada/Foreign, $ 4.95, abstracts available in Portuguese in Visão, Lisbon, 2003, € 2). 
Fazer amigos

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