Umbigo
Tuesday, September 23, 2003
  XV.


Narcotizado pelos escândalos da pedofilia e os fogos florestais, não deu o País o devido destaque ao desaparecimento de uma das mais densas e penetrantes colunas da imprensa escrita nacional. Referimo-nos, obviamente, aos textos da ensaísta Vera Roquette que um jornal com pergaminhos centenários, que gosta de se autodenominar «uma instituição», tinha a lata de publicar aos sábados.
No espólio Vera Roquette depositado na Biblioteca Nacional (sector de reservados) conservam-se alguns inéditos da autora. Agradecendo a autorização do director daquela instituição, Prof. Doutor Diogo Pires Aurélio, publica-se um pequeno fragmento para os milhões de leitores que guardam saudades da presença de Vera Roquette (uma presença quase tão boa como a do advogado João Vieira de Almeida, rapaz com notórias dificuldades em escrever mais do que 54 caracteres a dois espaços).
Para maiores desenvolvimentos, aconselha-se: Vera Roquette, Fotobiografia (Círculo de Leitores, 2002), de Inês Pedrosa (colecção «Grandes Biografias do Século XX», dir. de Joaquim Vieira); Roquettiana Activa e Passiva. Uma visão biobibliográfica, de Luciana S. Picchio (INCM, 1998, já desactualizada); Roquetteanistas e Antiroquetteanistas: uma polémica literária em aberto, de Óscar Lopes e Arnaldo Saraiva (Campo das Letras, 2000); Do dionisíaco e do apolíneo no roquetteanismo português, de Maria Helena da Rocha Pereira (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Cultura Clássica, 1997). Além, naturalmente, do seminal «O Psicodrama da Identidade Nacional na obra de Vera Roquette», de Eduardo Lourenço (Colóquio Letras, nº 102, Abril de 2002, pp. 155-167). Um estudo mais aprofundado não pode prescindir das fontes primárias, com destaque para o Corpus Roquettianus Classicus. Opera omnia, de que já saíram 23 tomos (letras A-F e dois volumes de índices) com a chancela da Academia das Ciências de Lisboa.
Mas já percebemos que o interesse do leitor reside no inédito. Vamos a ele:

Férias

Férias é acordar às horas que nos apetece. Tomar o pequeno-almoço na maior das calmas e ler os jornais na esplanada com todo o tempo do mundo antes de ir para a praia. Férias é comprar revistas estrangeiras que não compramos nas outras estações do ano. Férias é ler os livros que ao longo do ano se acumularam na mesa de cabeceira à espera de melhor oportunidade. É sentir ao fim do dia o sal na pele ao sol. Férias é ter um dever e não o fazer, como escreveu Walt Whitman. Férias é ter tempo para estar com os amigos sem o olhar constante no relógio (nas férias, nunca uso relógios). É ficar no «T» até ao raiar do crepúsculo do amanhecer, sabendo que no dia seguinte não teremos que ir trabalhar ou pensar nas compras da casa. Férias é o melhor antidepressivo do mundo. Essencial para carregar as baterias para a lufa-lufa da vida stressante nas cidades urbanas. No nosso tempo contemporâneo, férias não são um luxo, mas uma necessidade. Se o leitor não foi ainda de férias, aproveite e vá. Por mim, eu pessoalmente estou de férias.






 
Wednesday, September 17, 2003
  XIV.


Tem de apelido Coimbra, mas vive em L.A. (=Los Angeles, para os não-familiares). O Sr. Coimbra até é espertalhote e tem a sua graça. Em todo o caso, tem menos graça do que o que julga - e aí é que bate o ponto. O rapaz também não tem culpa, pois, como se sabe, teve uma mãe castradora. Noites a fio, pela invernia dentro, D. Conceição Hipérbolica, de Sernacelhe, obrigou o petiz a fazer redacções com, pelo menos, 23 hipérboles em cada parágrafo. Na puberdade, Rui Hipérbolico Coimbra rebelou-se contra a tirânica D. Conceição, mudando o nome para Rui Henriques Coimbra. Mas o código genético da dinastia Hiperbólica (concelho de Sernacelhe) continuou lá, indelével. Fugido para os Estados Unidos, Rui frequentou um Anacolut Course (curso de anacolutos) e ainda fez umas cadeiras das famosas Assindent Lectures (aulas de assíndeto). Concluiu com proveito um mestrado em aliterações e ainda pensou abalançar-se a um doutoramento em sinédoques. O estudo obsessivo destas figuras de estilo visava apagar o trauma infantil da hipérbole. Mas esta, cruel, regressa sempre aos seus textos, por mais que o nosso infeliz Rui procure escapar à fatídica home-schooling de Sernacelhe. A paranóia hiperbólica agrava-se sempre que se trata de apreciar a beleza, sobretudo de feminina e em especial de actrizes. Um caso dramático passou-se com uma viagem do nosso Rui pelo norte da Europa: numa semana, foi à Dinamarca e disse que os dinamarqueses eram o povo mais bonito do mundo; na semana seguinte, foi à Suécia e o que é que ele disse? Acertou: os suecos são o povo mais bonito do mundo. Ora imaginemos um reformado da clássica Companhia dos Caminhos-de-Ferro de Benguela, viúvo recente, que compra o semanário «Expresso» na vã esperança de se manter informado. O idoso (tratemo-lo assim) quer saber qual é o povo mais bonito do mundo, pois até pensava, pelo cair da folha no Outono («está mais fresco e os preços não são a loucura do Verão» e «ainda faz dias bonitos»), integrar a famosa excursão Inatel «O Povo Mais Bonito do Mundo» (com paragens em Badajoz, cidade-museu, e Aldeavilla, património da Humanidade, e o resto é sempre a andar, que quem não órinou tivesse órinado lá atrás). Não ficará o senhor baralhado? À atenção, pois, do Sr. Coimbra.
Espreitemos agora a sua crónica da próxima semana:


Dias de Calor

Bem, antes de começar este texto tenho de explicar que o Pigs for Pearls não é propriamente um hotel. Se fosse um hotel, seriam precisas pelo menos duas galáxias para lhe dar estrelas. E, bem, mais uns três cometazinhos. O Pigs (como lhe chamam familiarmente as gentes de L.A., mesmo aquelas que julgam que só existe em sonhos) fica situado em Rodeo Drive. Mesmo ao pé de uma loja da Cartier que tem coleiras para caniches cravejadas de diamantes cujo preço ronda o salário de um ministro de Portugal nuns, digamos, 232 anos de trabalho (bem, estou a exagerar: talvez nuns 7645 anos de labor de um camponês vietnamita da média burguesia agrária). O Pigs é «só» o hotel mais caro de Rodeo Drive, um local que também é «só» a rua mais cara do universo já desbravado pelo Hubble. Como sofro do coração, não perguntei o preço da diária. Apercebi-me, ainda assim, que o Sr. António Champalimaud pode tomar um chá de menta na Sala Vancouver se se dispuser a desfazer-se de um terço do seu património.
É claro que este vosso criado só entrou no Pigs porque tinha convite para assistir a uma «premiére» do novo filme da Jennifer Lopez com um rapaz pouco conhecido (acho que se chamava Tom Cruise, conhecem?). Obviamente não fui ao Pigs para ver o filme (de resto, uma «soap opera» onde a cruel hispânica dá a volta à testosterona do pobre Thomas quando ainda passavam as letras do genérico). O meu objectivo era, como o leitor já se apercebeu, ver com estes azuis que a terra há de comer um pedaço que fosse da Jennifer (ficámos amigos, como vêem). Bastava-me três segundos de relance do seu calcanhar de Aquiles para dar graças a Deus por ter nascido.
O porteiro do Pigs, um gentleman grisalho com um ar mais distinto do que todos os nossos presidentes da República juntos (Manuel Teixeira Gomes incluído), olhou para mim com o ar de «Olá, formiguinha! Bem sei que nem que escrevesses 23544 crónicas por dia conseguias franquear a portinha deste estabelecimento. Mas, vá lá, como sei que és jornalista e tens um appointment marcado com essa terceiro-mundista da Jennifer Lopez aqui o ogre vai deixar-te entrar sem fazer perguntas».
No lobby, com um ar aparvalhado a olhar para os mármores de Carrara, já estavam uns 433 colegas deste duro ofício. Alguns, de ténis calçados. Eu envergava a minha T-shirt histórica com os dizeres: «Eia, rapaziada de Sernacelhe! Já viram adonde chegou o vosso Ruizinho da D. Conceição?» (e, nas costas: «Hyperbolics do it better»). Como qualquer diva, a Lopez fez-se esperar. Acho que exagerou uns minutos: a Universal tinha marcado o encontro para as 9 da manhã (brrrrr!!!!) e eram seis e trinta da tarde e ainda o pessoal andava aos tombos pelo hall dourado do Pigs.
Mas ei-la que desce. Este é daqueles momentos em que uma pessoa não se arrepende que um cometa esteja a cair desvairado na direcção da Terra e a Humanidade vá desaparecer dentro de meia-hora. Subitamente, comecei a acreditar que, se Deus não existe, devia existir só para contemplar esta maravilha da Natureza. O corrimão a que Jennifer se agarrava delicadamente começou, não sei porquê, a contorcer-se de gozo. Os degraus da escadaria derretiam à sua passagem. Vi claramente visto o mármore de Carrara a estalar com os queixos do pessoal da press a baterem no chão (também o deste que agora vos escreve). Numa reacção espontânea, todos nos ajoelhámos a beijar o tapete por onde a deusa iria passar. Como diria Roberto Carlos: «obrigado, Senhor!» Ah, já me esquecia: ao lado dela ia um rapaz que me recordou um figurante do Top Gun. Não me lembro do nome.
A conferência de imprensa foi curta. Ainda bem. Os bombeiros de L.A. não tiveram descanso a resgatar os corpos de jornalistas que iam sucumbindo a cada sorriso ou esgar da menina Lopez. Ah, Ben Affleck, se tu estivesses aqui eu dizia-te que és mais sortudo do que aquele coxo que ganhou duas vezes o El Gordo!
Seguiu-se o visionamento do filme, já sem a presença da actriz, que se desvaneceu como uma visão mística de Santa Teresa de Ávila. O rapaz que a acompanhara, parecido com o Tom Cruise (ou seria mesmo ele?), distribuía sacos de pipocas pelos meus colegas de ofício, enquanto perguntava: «Está tudo bem com os senhores? Querem mais uma aguazinha?». Eu já não estava nas melhores condições para seguir uma película. Depois de ter encarado alive a grande Lopez os meus neurónios só tinham consistência para ver anúncios de comida para cão. Tudo o que ultrapassasse esse nível básico parecer-me-ia um filme «de tese» de um realizador islandês maníaco-depressivo ou uma película a cores do saudoso César Monteiro. Digam-me, se conseguirem, quem é capaz de ler Schopenauer depois de vislumbrar por segundos os dentes da Elle Macpherson.
Saí do Pigs com a leve impressão de que tinha sido raptado por extraterrestres cruéis que me deram a conhecer um mundo maravilhoso e depois me lançaram numa estação de tratamento de águas residuais. Mas não faz mal. É a vida, como diria o outro. Quem? O outro. O outro do outro, que somos nós. Estarei a ficar louco? Porque será que julgo todas as manhãs que o cabo da minha escova de dentes se parece com as curvas sinuosas da Jennifer Lopez? Doutor Balsemão, substitua-me com urgência.

 
Tuesday, September 16, 2003
  XIII.

Com o apoio da empresa Planeta Agostini, prossegue o cada vez menos circunspecto semanário «Expresso» o coleccionável «Cem Inanidades Sobre Os Lusíadas». Na sua edição de 6 de Setembro, foi a vez de Joana Matos Frias. Obviamente, «ensaísta» (bem-aventurado País com tamanha percentagem de ensaístas e tão poucos ensaios). Vamos a factos:

«Creio que a minha primeira vivência consciente da natureza sensorial da poesia se deve ao facto de com 14 anos o tema e os motivos d'Os Lusíadas não me terem seduzido. Decorei com prazer e inconfessa vaidade alguns versos do poema, sem passar da primeira estrofe. E hoje é bastante claro que mesmo essa, repetida até à exaustão, nada mais significou do que a cadência em que me envolveu, levando-me a dormitar ao sol da ocidental praia lusitana no fim da linha só pela semiciente perversão de gozar aquele saboroso conflito entre o metro e a sintaxe e influir no abalo e no sacrifício da ordem».

Segue-se uma pérola:

«O mais histórico dos poemas foi o que cedo me ensinou a intemporalidade da poesia e a atemporalidade do poema, graças à previsibilidade encantatória das idas e vindas, à circularidade dos avanços e retornos do discurso, à harmonia isossilábica e à pressão métrica, com todo o contorcionismo de tensões e distensões no corpo das palavras que tal coreografia exigia: primeira intuição de que, ao contrário da prosa que marcha, a poesia rodopia».

Tanta merda de «semiciente», «isossilábica», «pressão métrica», «contorcionismo» e «coreografia» para concluir que «a prosa marcha» e a «poesia rodopia»? Ele é só ensaísmo e ensaístas e vai-se a ver ainda não saímos da fase «o canto é uma arma».
 
Monday, September 08, 2003
  XII.



Uma infância na Praia das Maçãs explica muita coisa. A húmida neblina matinal, que cai antes de raiar o dia e só levanta por volta das 18:47 (para deixar cair, às 18:51, a conhecida névoa nocturna), marca, sem dúvida, um destino. Um destino plúmbeo. Sintra é um lugar belo e misterioso, «cheio de encantamentos e sortilégios», mas desde há anos que os prospectos turísticos, por ordem do «moderno» António Ferro e do seu fascista SNI, andam a aldrabar o celebérrimo «Oh, Sintra, Glorious Eden», do não menos célebre pederasta Lord Byron. A versão integral, hediondamente truncada para efeitos promocionais, é, como se sabe: «Oh Sintra, glorious Eden/But the helmet of neblyn always present in your tromb/Makes me feel homesick/of my solareng Albion/Better to escape to Missolonghi with a portuguese marujo/And those we talk like this are not cox/Like myself». Numa tradução livre dos anos 50: «Ó minha Sintra, és cá um Paraíso glorioso/mas o capacete de neblina que trazes sempre na tromba/Faz-me sentir saudoso/da minha solarenga Albiona/Bem, sempre é melhor fugir para Missalonga com um marujo português/E quem fala assim não é coxo/Como eu» (edição Romano Torres, tradução de Mário Nafarros).
Nem este intróito poético ameniza o drama de uma infância passada na Praia das Maçãs. Se a isto juntarmos uma educação de matriz inglesa (como João Carlos Espada não teve e gostava de ter tido), é comum, quase fatal, a ocorrência do famoso Apple’s Beach syndrome, já estudado em artigos científicos vários, dos quais o mais recente e autorizado saiu no British Journal of Medicine, da autoria de Gloria Swanson, Ph.D. (outra vítima da Praia das Maçãs e da voracidade sexual do clã Kennedy). O sintoma mais evidente deste síndroma, segundo a Doutora Swason, é a condensação da neblina nas bolsas lacrimais. Um case-study (estudo de caso) desenvolvido pela Doutora Swason, o dos irmãos Jorge e Daniel (nomes fictícios), permitiu descortinar níveis de humidade da ordem dos 98% nas bolsas dos antigos infantes, hoje homens feitos, da Praia das Maçãs (ou Praia Grande, que para o caso vai dar ao mesmo). Curiosa foi a diversidade de reacções dos dois irmãos: Jorge chora copiosamente, sobretudo em cerimónias oficiais e actos de Estado, o que lhe permite uma maior tolerância a outros efeitos secundários do Apple’s Beach syndrome. Já o nosso Daniel, destituído desta rara capacidade de regurgitar «tudo o que tem lá dentro» (paráfrase ao título de um livro do psicólogo-da-moda-que-só-por-acaso-é-irmão-do-Venerando-Chefe-do-Estado), possui uma ovulação nas bolsas lacrimais que só poderá ser removida mercê de delicada e dispendiosa intervenção cirúrgica. O ar de Ionesco, em todo o caso, não lhe vai mal. Em ambos as situações descritas nota-se outro efeito secundário do síndroma (esse, incurável): Jorge e Daniel trazem estampada no rosto a joie de vivre de quem acabou de fazer uma colonoscopia profunda. Conceituados psicoterapeutas novaiorquinos distribuem aos seus pacientes mais difíceis fotos de Jorge e Daniel, assegurando ser antidepressivo mais eficaz do que Prozac. Ao olhar para a tristeza daquelas carinhas, quem pode sentir-se no direito de andar deprimido?

Vamos, pois, a um texto de Daniel, sempre na cova dos leões. Singelamente intitulado «Rita», até porque ninguém morre sozinho.

Rita

Lembro-me como se fosse hoje da tua primeira consulta. Vieste acompanhada da tua mãe e passámos a primeira meia-hora no mais profundo silêncio, só quebrado pelo som roufenho do velho ar condicionado do meu despido gabinete do Hospital (público). Ao fim de meia-hora, perguntaste se podias fumar. Quando te fiz um sinal de assentimento com o queixo, respondeste com uma incontida agressividade: «Pois eu não fumo e odeio que fumem à minha volta». E nisto acendeste um cigarro. Pensei para comigo: «Ai que rico trabalhinho que aqui está! É que só me caem malucos, camandro!». A tua mãe, visivelmente desestruturada, aproveitou para fumar um maço inteiro de «Português Suave», acendendo uns nos outros sem dizer palavra. O silêncio permaneceu por mais meia-hora, durante a qual desenhei cinquenta e quatro Droopys (a personagem de Tex Avery com que me identifico) num bloco Castelo A4, dando à situação um ar profissional. Às tantas, já nem eu me lembrava que estavam duas aventesmas no meu modesto gabinete do Hospital (público), disparaste mais um pouco de ácido: «Porque é que o senhor tem esse ar de palhaço pobre de circo pobre? ». Mais meia-hora de silêncio e foi a minha vez de exercer a (secreta) vingança: «Acabou a consulta por hoje». Levantaram-se ambas, aliviadas. Mas, quando iam a sair, lembrei: «São dezassete mil escudos, minha senhora. Primeira consulta, bem sabe». A tua mãe abriu bem os olhos, como se tivesse levado uma chicotada eléctrica na espinal medula ou pisado um peixe-aranha adulto, numa expressão angustiante do tipo «Ai, que já me deram!». Foi a única reacção que lhe vi nessa tarde. Aliás, sempre me pareceu um pouco apática e alheada, incapaz de compreender a disfuncionalidade do teu drama íntimo (as duas caixas diárias de Valium que o meu colega lhe prescrevera também não ajudavam).
Foi assim que passámos as nossas tardes daquela Primavera gentil no meu gabinete despido do Hospital (público). Lá fora, o azul do céu gritava. Um grito de amor que me chamava, instante. E eu, no meu gabinete despido do velho serviço de Psiquiatria, desenhava Droopys e deixava correr os pensamentos: «O que custa ganhar a vida nesta ultraperiferia da medicina convencional... Aqueles cães da cirurgia toráxica andam de Porsches a fazer fortunas e eu com esta maluca à minha frente». Às tantas, pensei usar contigo o método de psicoterapia cognitiva que tinha aprendido com o meu mestre Carl Whitaker, em Madison, Wisconsin. Mas, disse para comigo: «E se a gaja ainda me melhora? Ná, o melhor é usá-la para o meu próximo livro. Vai direitinha para o capítulo sexto. Ou então, se não der, mando-te para já para a semana para a crónica da XIS» (é o que estou a fazer, de resto).
Percebi desde o início que tinhas um problema de interacção familiar. Também não era de estranhar, se o senhor teu pai dava semanalmente coças de criar bicho na senhora tua mãe («Não dizias que querias mudar de visual? Fazer uma plástica? Toma!»). A química, no entanto, começava a funcionar entre nós. Temi mesmo a eclosão de um fenómeno de transferência, e muitas vezes me acorreu ao espírito a história de Ana O. (nome fictício) e de Breuer, e de Freud e dos pequenos cantores de Viena do princípio de século, tudo gente que passou pela garaganta funda da Senhorita Berta Pappenheim (nome real).
Vou dar-te a iniciativa, Rita. Começa tu. O que chegar primeiro espera pelo outro. Foi assim, seguindo esta via paciente e sinuosa, que te foste abrindo comigo, deixando fluir a dinâmica de uma afectividade que te faltava em casa. Trilhámos juntos um caminho nosso, por entre veredas que a razão dos homens nem sempre alcança. Até ao dia que te cantei uma música dos Chat Sauvages que nos anos 60 ouvíamos nos fins das tardes de Verão da Praia Grande, no meio da névoa. Ao ouvir-me entusiasmado no refrão («Quand vient la fin de l’été, sur la plage»), uma enfermeira mais desconfiada entrou a perguntar se precisávamos de alguma coisa. Nunca gostei dela.
Não tenho a pretensão de ter resolvido os teus problemas. Abriguei-te apenas debaixo da minha asa gasta e fendida de tantas inquietações. Partilhei os teus dramas, numa cumplicidade de afectos que ainda hoje permanece. E, como de costume às sextas, teu pai continuou a arriar forte e feio.
A estrada que percorremos juntos estava cheia de escolhos. Quando tudo parecia avançar, regredias dois meses (o que, em direitas contas, significava cerca de 253 contos de prejuízo para os progenitores, ao índice de preços da altura). Depois, avançavas um pouco. Deixavas cair uma palavra que me permitia estabelecer uma ligação longínqua com uma outra que havias dito três semanas antes (mais precisamente, há 57 mil escudos atrás). Lembro-me perfeitamente: numa tarde de Junho, disseste, não sem insolência: «Esta merda não vai pr’á frente?». E eu de imediato associei o termo-chave («merda») ao pedido que tinhas feito para ir à casa de banho em finais de Abril. Não me enganaria no diagnóstico, como adiante se verá. Soube desde o início que a tua vertigem de vida ainda ia dar merda.
Fui o guia da tua viagem. A tua viagem. Começávamos a fazer progressos. Mas era um trabalho de Sísifo: como já começavas a ganhar corpo, o teu pai achou por bem passar a malhar em ti, deixando em paz a velhota. Seria também um fenómeno freudiano de transferência? O que é certo é que a tua mãe passou a andar mais direita e largou os óculos escuros. Sempre atento aos sinais, o meu colega baixou-lhe a dose diária para uma caixa de Valium (não comparticipado).
Pouco tempo tivemos de falar da tua vida afectiva. Soube de uns namoricos na caixa do elevador, um dos quais por pouco não acabou com os dois amantes esborrachados, Heloísa e Abelardo dos tempos modernos. Soube também de uma gravidez ectópica, até perceber que tudo não passara de uma construção de realidade alternativa que imaginaste a partir da leitura do consultório sexual da revista Maria.
À nonagésima segunda sessão, o teu pai apareceu. Disse-me que o método que usava, a porrada semanal, se inscrevia no contexto de um programa credenciado pelo Mount Sinai Hospital. Como duvidasse dele, propôs-se experimentar em mim o que aprendera nos Estados Unidos. Passei de imediato a acreditar no método. Aquelas mãos peludas e calejadas de cavador foram, sem dúvida, um bom argumento científico.
Soube há dias que te tentaste suicidar ingerindo uma caixa de laxante Agarol (não comparticipado) numa casa de banho do Colombo. Na porta do WC rabiscaste, num grito de desespero: «Se um diário sério e de referência como o Público lança uma colecção de livros de auto-ajuda com o nome Xis-Livros para Pensar, declaro que deixei de acreditar na espécie humana». Os efeitos secundários do teu gesto, um gesto que eu tinha previsto, ficaram à vista na invocação de objecção de consciência e na greve de zelo, que ainda hoje se prolonga, de todas as 37 empregadas caboverdianas da Limpotécnica, empresa responsável pela higiene dos sanitários do Centro Comercial Colombo. Caso não saibas, a ala norte do referido estabelecimento comercial continua vedada ao grande público em geral (porque é que o «grande público» tem de ser sempre «em geral», explicas-me, Rita?).
Cheguei à conclusão que, ao fim de 553 sessões de hora e meia, pouco tempo tivemos para nos conhecer. Precisaria talvez de mais umas 1.534 consultas para penetrar no âmago da tua inquietude. Não foi possível criar uma comunidade comunicativa médico/paciente, apesar ter rebentado com um orçamento familiar de classe média-baixa de duas décadas. Teu pai foi obrigado a colocar no Fiat 1600, que tanto polia e amava, o conhecido dístico «Olá! Procuro um novo dono! Tel. 2135677896 (só à noite)». Imagino que, depois desta, as sessões do método do Mount Sinai Hospital se tenham intensificado.
Adeus, Rita. Tropeço de ternura por ti.
 
Fazer amigos

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