Umbigo
Monday, December 15, 2003
  XXXVI.

Os familiares do poeta Sebastião Alba e a personagem «Bicas» da novela «Olhos d'Água», encarnada pelo actor Manuel Cavaco, vêm por este meio declarar que o sujeito ontem capturado na localidade de Tikrit NÃO É qualquer uma das personalidades acima referenciadas.  
  XXXV.

A bolsa de apostas de Londres está a aceitar, à razão de 1/1000000, que o Expresso na sua já tradicional edição-fim-de-ano-só-com-fotos-que-a-malta-foi-de-férias irá eleger:

Acontecimento nacional do ano: Processo Casa Pia
Figura nacional do ano: juiz Rui Teixeira

Se nos enganarmos, prometemos que fechamos este blog. 
  XXXIV.

O empresário Diogo Vaz Guedes, animandor do Congresso de jovens gestores «Compromisso Portugal», acaba de vender a sua empresa, a segunda maior construtora nacional, a um grupo espanhol. Por esse motivo, informa que o Congresso, cuja realização se prevê para Janeiro de 2004, passará a intitular-se «Compra-me isso Portugal».  
  XXXIII.

Aproximando-se a tradicional quadra dos mortos na estrada, aqui fica a mensagem de Natal (de 1978) do Pde. Mário de Oliveira (o famoso pároco da Lixa). Extractos:

«(...) Maria de Nazaré que o Natal revela atenta ao movimento dos oprimidos e explorados de todo o mundo na demanda pela liberdade e pela justiça, e toda ela, por isso, canta entusiasmada as pequenas e as grandes vitórias por eles alcançadas, aqui e ali, desde o Egipto dos faraós à Nicarágua de Somoza; ao contrário de Maria de Nazaré que aposta que os poderosos serão derrubados e os ricos despedidos de mãos vazias, a maior parte do Povo português, há séculos dominado pela nefasta influência da Cristandade ocidental, materializada sobretudo na função mítica dos arcebispos, bispos e abades, é levado a viver subserviente frente aos senhores e patrões (...).
Ao contrário de Maria de Nazaré que vê no filho nascido das suas entranhas e anteriormente concebido por força de um Projecto alternativo ao do Poder opressor, o libertador e salvador do seu Povo e até de todos os povos caídos ainda na alienação; que, por isso mesmo, é capaz de O acompanhar e reconhecer, quando Ele, homem feito, foi perseguido e morto pelo Imperialismo romano, em conluio com os latifundiários nacionalistas da Judeia, como se fosse um chefe de guerrilha».

(in Mário de Oliveira, Cristãos por uma Igreja Popular, Centela, 1983, pág. 97).

 
Wednesday, December 10, 2003
  XXXII.

Provavelmente, a frase mais pirosa do ano que finda. Do editor da revista «Única» do semanário Expresso, erm 6 de Dezembro de 2003. E com destaque:

«O Mundo está diferente. Maria José Morgado também»

Poder-se-ia acrescentar, singelamente:

«E o Expresso está cada vez mais uma bela merda» 
Thursday, December 04, 2003
  XXXI.

Para quem julgar que este blog anda a descambar na ordinarice, avisa-se maior atenção à realidade. Na já referida edição nº 1308 da prestimosa publicação Maria, Marluce, ex-mulher de Carlos Cruz, explica a acrimónia da estação televisiva TVI e da apresentora Manuel Moura Guedes contra o arguido Cruz:

«O que o Carlos teve com a Manuela Moura Guedes foi uma noite única. Nessa altura eu namorava o Carlos e ela estava noiva do primeiro marido, o Francisco. O Carlos era muito mulherengo, mas só soube do caso mais tarde (...). Aquela noite deixou-lhe (Manuela Moura Guedes) muitos traumas na certa. Ela está louca. É por isso é que está virada contra o Carlos».

O que lhe terá «o Carlos» feito nessa «noite única»? Que «trauma» deixou na opinativa Guedes?

Tímida proposta de solução do impasse:

«Fica pela presente notificada a Drª Manuela Moura Guedes para se apresentar no Instituto de Medicina Legal de Lisboa (IML) no próximo dia 12 de Dezembro, pelas doze horas, com vista à realização de perícia médico-legal. Pode fazer-se acompanhar de guarda prisional do EPL para a realização da diligência, que não durará mais do que cinco minutos».



XXX.

A forma é importante. Vejamos como a irrequieta revista Maria, nº 1308 apresenta a seguinte notícia:

«Carlos Cruz tem passado tormentos no EPL. Há pouco, um guarda prisional forçou-o a ficar nu voltado de costas, só para ver se não trazia nada escondido no ânus. A "revista" durou cinco minutos e nada foi encontrado. Embora faça parte do "trabalho normal" dos guardas, Cruz não gostou».

É notável a forma, a forma como se condensa tanta e tão relevante informação em tão poucas palavras. Assim, fica o leitor a saber:

a) Cruz foi forçado a ficar nu, voltado de costas;
b) Durante cinco minutos, um guarda revistou-lhe o ânus;
c) No ânus de Cruz nada se encontrou;
d) Faz parte do "trabalho normal" dos guardas revistarem, durante cinco minutos, o ânus do arguido Carlos Pereira da Cruz;
e) a última, e fundamental: «Cruz não gostou».

Logo, deduzirá o leitor, Carlos Pereira da Cruz não gosta que os guardas do Estabelecimento Prisional de Lisboa desempenhem aquilo que está no seu conteúdo funcional, que é, entre outras valências, passarem-lhe revista ao ânus por períodos não inferiores a cinco minutos.


 
  XXIX.

Clara, Clarinha, tu andavas a pedi-las. Desculpa ainda não teres sido servida neste humilde estabelecimento, mas, haverás de reconhecer, não é fácil lidar contigo.

Primeiro problema: há um enorme abismo entre o que és (uma jornalista «que escreve bem») e o que gostarias de ser (um grande vulto da literatura). E tu sabes isso. A impiedosa Clara-cronista será sempre demasiado severa para com a virtual Clara-escritora. É esse o motivo pelo qual a retumbante novela que guardas há anos nas gavetas da tua imaginação jamais verá a luz do dia. É pena, porque com jeitinho talvez conseguisses escrever uma coisa parecida com o «Equador», para vender bem no Verão e levar para a praia. O teu drama é que querias um «Nostromo» ou uns bons «Karamazov» (2 volumes, tradução directa do bielorusso de Nina e Filipe Guerra, Lda.). Achas que, com o que já leste na vida, tens direito a não menos que isso. O teu talento é a tua tragédia. Com a fama que já tens, tudo o que escrevesses seria sempre «vocês têm o último da Clara Ferreira Alves? Não me lembro do nome». Resumindo: estavas três meses nos tops da Fnac e o resto dos teus dias na ignóbil poeira do esquecimento. Não é isso, em absoluto, o que almejavas. O teu sonho era escrever uma obra de génio numa mansarda tuberculosa de Dublin, vivendo do ar, cafés e cigarros, saindo directamente do anonimato para as páginas do The Western Canon. O problema é que já és demasiado famosa para isso. Tens, portanto, de ir convivendo com personalidades literárias como o Dr. Pedro Miguel Santana Lopes para ganhares o que a tua pulsão consumista reclama.

Segundo problema: a tua pluma é polifónica. Saltitas entre um número variado de registos, do género «colecção Anita» («Anita na Praia», «Anita, Grávida Adolescente», «Anita no Jardim Zoológico», «Anita Vai ao Circo», «Anita no Private Banking», «Anita e o Ouricinho-Cacheiro», «Anita e a Co-Incineração», «Anita no Ballet», «Anita e as Obrigações de Curto Prazo», «Anita Fuma a Primeira Ganza», «Anita na Montanha», «Anita Já Dá Para a Veia»).

Assim, temos:

Clara, Íntima dos Grandes Escritores - «nessas noites loucas do English Bar, em que o Zé Cardoso Pires, cigarro atrás de cigarro, falava a língua de trapos dos marinheiros de Conrad e me ensinava a distinguir as tonalidades dos maltes»; «foi então que o Al Berto se pôs a uivar à porta do Frágil, comme un chien andalou»; «a Pilar deu um soporífero ao José e lá fomos as duas ver a última colecção da Prada e beber um copo num bar de strip masculino com o nome inesquecível La Vagina Hídrica»; «quando o Graham Greene me mirou com aqueles olhos aguados, censurando o meu mais do que óbvio agnosticismo, percebi que Ferreira Alves jamais seria um nome da literatura universal»; «um dos grandes privilégios da minha vida foi ter partilhado com John Le Carré, num incaracterístico bar de hotel das Docklands, a paixão do whisky com soda»; «isto depois da noite tempestuosa em que até de madrugada discuti os direitos humanos em Cuba com Gabo»; «de passagem por Lisboa, Dostoievski telefonou para o jornal à minha procura. Por azar, o meu telemóvel estava sem bateria»; «por vezes, a Sontag irrita-me. Aliás, é recíproco, segundo me disseram»; «o José passou o fim de semana de cara fechada. A Pilar e eu, já tocadas por uns copitos de Marquez de Riestra, Gran Reserva, começámos a disparatar. O José só mostrou os dentes quando, à hora do jantar, nos veio dar a notícia da TV, num sorriso aberto: "Mais um atentado no Iraque, morreram sete americanos". O rosto iluminou-se: "E tinham todos entre 18 e 22 anos de idade!"».

Clara, Repórter de Guerra (esta mete sempre motoristas de táxi e crianças de olhos grandes) - «Abu, o meu fiel motorista («taxi, taxi, lady? Come with Abu!»), levou-me então ao campo dos refugiados. O campo das crianças mortas. Um menino de oito anos, a quem os soldados israelitas tinham tirado a Playstation, olhou-me com a fundura de um ódio de séculos. O ódio que faz levantar muros. Muros de lamentos e sofrimentos, nesta terra eternamente martirizada por uma coisa a que chamam Deus»; «no fim do dia, todos nós, os correspondentes daquela guerra sem sentido, gostávamos de nos sentar à beira da piscina vazia do Walraff’s, a ouvir o som dos morteiros ao longe. O Walraff’s deve ser o único hotel do mundo que tem uma cratera de morteiro na parede do piano-bar. É um lugar onde me sinto bem».

Clara, urbano-depressiva - «o velho sentado no banco do jardim era um farrapo, uma folha outonal que em breve iria ser varrida da existência humana, sem que ninguém desse por isso, sem ninguém se importasse com isso»; «Alice confessou-me que era professora e via nos alunos que a insultavam e lhe cuspiam para cima o único escape que lhe restava para fugir aos intermináveis domingos da sua solidão»; «naquela inesquecível viagem de comboio para Turim, em que o casal de meia-idade à minha frente não trocou uma só palavra»

Clara, cidadã do mundo - «confesso que fiquei embasbacada quando o Papa, virando-se para a Aura Miguel, perguntou se aquela senhorita ali ao fundo, a fumar Partagas, era a Clara Ferreira Alves»; «cá estou de novo na esplanada do mesmo resort de Bali, com as mesmas americanas obscenamente gordas e os mesmos mafiosos russos rodeados de guarda-costas com Uzis»; «saio de Las Vegas sem saudades daquela amálgama pornográfica de néon e turistas japoneses»; «na esplanada, olho com desprezo a multidão que seguia uma menina com um guarda-chuva amarelo. Agradeci a Deus não ter feito de mim uma turista. Como Chatwin, sou e serei sempre uma viajante».

Clara, na intimidade - «esta semana tive obras em casa. Em Portugal, obras em casa é sinónimo de uma aventura. Uma tempestade doméstica, enfim. Os canalizadores, que disseram que chegavam às nove (“esteja descansada, doutora!”), apareceram ao meio-dia, mal-encarados (“porra, cancelaram a conferência do Derrida na Culturgest!”)»; «fiz uma coisa de que sempre me arrependo: arrumar os livros. Nestas ocasiões, encontro sempre uma edição perdida de Proust ou um Beckett que procurava há anos. Perco-me a folhear as memórias dos meus quinze anos, quando já tinha este complexo de superioridade e julgava que viria a ser uma escritora de expressão mundial – pretensão que, de resto, ainda não abandonei por inteiro».

Clara-caprichosa, és tremendamente snob. Mas essa até te desculpamos. Todos sabemos que o snobismo é a forma de disfarçares a banalidade pequeno-burguesa do teu nome, de que te envergonhas. A tua petulante altivez esconde um drama profundo: tens um apelido compósito («Ferreira Alves») que parece marca de vinho branco para temperar a carne. Tara perdida.
 
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