Umbigo
Tuesday, January 20, 2004
  XL.

A mão que embala o queixo


O rapaz já praticava o gesto na foto que exibia no semanário de onde veio («O Independente») e agora reincide no semanário em que se estreou há pouco («Expresso»). Referimos obviamente ao filósofo político João Pereira Coutinho. O gesto?
Rodin, evidentemente. Ou, talvez mais apropriado, Gabriel, o Pensador. O gesto do jovem pensador é o de um olhar altivo e, claro, de mão pousada no queixo. Meditativo. Talvez se trate de um problema com o fechamento do maxilar ou de uma cárie mal tratada por um médico indiano (estagiário) do Princess Diana Dental School de Oxford, que a bolsa da FCT, além de imerecida, não dava para mais. Cremos, todavia, que se trata apenas - e tão só - de um problema de pose: a mão, fechada, ampara o queixo e o polegar fica levemente retraído, a tapar a papada que desponta. O quadro geral é o de alguém que pensa nas coisas. Enfim, o retrato de um perfeito imbecil.

Prova documental. Um trecho:

«Prossegue o drama de Aveiro: sete mulheres julgadas pela prática de aborto, juntamente com maridos, namorados, um médico e duas empregadas. Posição pessoal? O aborto não deve ser descriminalizado. E estas mulheres não deviam ser condenadas. Uma contradição? Não creio. É possível estabelecer uma linha geral sobre aquilo que uma sociedade civilizada considera como moralmente aceitável. E é possível, perante casos concretos, exibir uma sensibilidade sobre a matéria que não passa por uma condenação em tribunal». (a tirada veio no último «Expresso»)

Obviamente, lá teria de vir o fadinho da «sociedade civilizada», não fora o rapaz discípulo dessa outra figura do imbecilismo nacional que dá pelo nome de João Carlos Espada (um menino que ainda em meados dos anos 80 era de esquerda e agora recomenda como leitura de Natal o livrito desse liberalão que é o Pde. João Seabra).

Mas vamos ao que interessa:

1º - O rapaz da mão do queixo (que saudades dos neo-realistas dos sacos de cimento e das bicicletas!) não diz aos estúpidos que não leram Isaiah Berlin o que é isso duma «linha geral sobre aquilo que uma sociedade civilizada considera como moralmente aceitável»

2º - O rapaz da mão do queixo não responde ao mais importante: porque é que o aborto deve ser criminalizado? Ele acha que deve ser («O aborto não deve ser descriminalizado») mas não explica porquê. Porque não é «moralmente aceitável» numa «sociedade civilizada»? Mas então o rapaz (que cultiva a mão no queixo e o liberalismo) não sabe que um dos pressupostos clássicos do liberalismo é a distinção entre a esfera do direito e a esfera da moral? Falando em «esferas», ajudá-lo-ia uma leiturazita do Michael Walzer. Ou já agora o célebre Relatório Wolfenden, sobre a (não) incriminação da homossexualidade e da prostituição, que foi publicado numa altura em que este miúdo ainda não tinha nascido.

3º - O rapaz da mão do queixo, obviamente, não sabe do que fala. Não conhece o processo. Não sabe se existiam atenuantes, agravantes, etc. Não sabe que um juiz não pode «exibir uma sensibilidade sobre a matéria» se no processo os arguidos não lhe tiverem dado razões para isso, com atenuantes e outras coisas que naturalmente não estão nos livros de Popper. Não sabe que uma «justiça do caso concreto» não pode sistematicamente desrespeitar o que está nos códigos, por maior que seja a «sensibilidade» dos magistrados, sob pena de se criarem coisas como umn «governo de juízes». Se a lei pudesse ser ultrapassada à mercê da «sensibilidade» dos juízes, a benefício de uma «jurisprudência do coitadinho», os fundamentos da «sociedade civilizada» (a sociedade que só escreve a tinta permanente e usa casacos de «tweed») iriam para onde este nosso pensador merece ser despejado: a cloaca. A posição de quem faz e desfaz as leis (e que, por acaso, foi escolhido pelo povo, pormenor que não parece atemorizar o rapaz que agarra o queixo) seria destruída.

4º - Mais importante: neste «caso concreto», os juízes não deveriam ter condenado. É essa a posição do pensador Coutinho. E, detalhe de somenos, como decidir outros «casos concretos»? Mostrar-se-ia sempre «sensibilidade», atirando para o caixote do lixo «a linha geral sobre aquilo que uma sociedade civilizada considera como moralmente aceitável»? Ou condenar-se-iam os arguidos, reabrindo noutros lugares aquilo a que o Sr. Coutinho qualifica como «o drama de Aveiro»? Entre a «linha geral» e o «drama de Aveiro» balança o nosso jeune philosophe (young philosopher). Com este balanço, tem mesmo de pôr a mão nos queixos. Para agarrar uma cabeça tão vazia quanto petulante.



 
Tuesday, January 06, 2004
  XXXIX.

Frases de 2003, eleitas pela redacção deste blog

Nacional - «Boa noite, Felgueiras, Boa noite, Portugal. Eu não fugi à justiça» (Fátima Felgueiras, a abrir conferência de imprensa no Rio de Janeiro. Frase verídica)

Internacional - «Não tive quaisquer contactos e nem sequer conheço pessoalmente o Snr. Carlos Silvino» (primeiras declarações de Saddam Hussein ao ser detido para averiguações nos arredores de Tikrit. Frase não verídica, mas possível, até porque, como diria EPC, o verídico não circunscreve as fronteiras do possível)


 
  XXXVIII.

O presente «blogue», associado ao Snr. José Vilhena e ao destacável «Inimigo Público», vem por este meio mostrar a sua indignação pela concorrência desleal que, no que toca ao nonsense, lhe é movida pelo semanário Expresso, cuja última edição noticiava a possibilidade de o distinto causídico Manuel Maria Martins vir a patrocinar o Snr. Saddam Hudai Hussein em causa que corre os seus termos no DIAP de Tikrit.










 
  XXXVII.

Porque é que mandaram este homem embora?

Cunha Rodrigues, ouvido sobre o processo Casa Pia, disse viver-se um «momento complexo» da justiça. E acrescentou:

«Nas depressões impõe-se que as elites elevem o seu discurso, porque o que se eleva converge»


Pergunta-se, de novo: porque é que mandaram este homem embora?  
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